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"Guia Literário para Machos", Caléu

LETRAS FRATURADAS

Cristian Luis Hruschka

MORAES, Caléu Nilson. Guia Literário para Machos, Florianópolis: Ed. UFSC, 2017, 117 pág.

Catarinense da pequena cidade de Santa Cecília, Caléu nos apresenta um livro desconfortante. É que os contos que integram “Guia Literário para Machos” deixam o leitor incomodado, perplexo pela linguagem direta e vulgar, mas animado para continuar com a leitura e acompanhar a saga sexual do personagem narrador.

“Guia Literário...” foi vencedor do Prêmio Silveira de Souza 2015, promovido pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, e certamente mexeu com os jurados. Já no primeiro conto (“Poeta Viado”) se verifica a agressividade do estilo de Caléu, usando e abusando de palavrões e narrativas sexuais que deixariam Christian Grey e seus 50 Tons de Cinza passarem vergonha por muito tempo. Aliás, perto das situações (posições!) descritas por Caléu, E. L. James não passa de uma ginasiana.

O escritor Carlos Henrique Schroeder, responsável pelo prefácio, diz em determinado momento que a literatura de Caléu é fraturada. Está correto em seu diagnóstico. Os contos do pequeno “Guia Literário...” podem ser lidos em um só fôlego. Estão devidamente concatenados, narrados em primeira pessoa.  A escrita é livre, fluída, corrosiva. Recheado de palavras não católicas, a maioria dos contos termina com trepadas, fodas que retratam o invejável apetite sexual do narrador, qualidade confrontada com a preguiça, com a vadiagem e sua paixão por livros e filmes.

Os contos vão se sucedendo e escritores como Hemingway e Dostoiévski passam a integrar o enredo. Outros também circulam pelas páginas do livro, como Kaváfis, Rubem Fonseca, Coetzee e Guimarães Rosa, servindo de mote para divagações e reflexões. Esse fato, porém, não torna o texto de Caléu mais gentil, cuja vulgaridade é mitigada por um narrador inteligente, que escreve teses, dissertações e monografias para estudantes, vendendo charutos baratos e roubando livros para sobreviver.

Doutor em Estudos da Tradução pela UFSC, Caléu leva para o livro essa brilhante qualidade. Nos contos “A Segunda parte do Golem” e “Canto Genital”, o narrador traduz, respectivamente, uma poesia do chinês e uma canção da língua havaiana, levando a crer que o personagem que narra as histórias é o próprio escritor, pelo menos nesse aspecto.

Outro ponto que chamou atenção foi a frase “Como um tomate com sal e me ligam:” (pág. 78), do conto “A Segunda parte do Golem”, e o trecho final do conto “Um Novo Romance”, onde o narrador diz que “Hoje o melhor romance brasileiro é Um Copo de Cólera. Curto e violento” (pág. 82).

O narrador não fala, mas Um Copo de Cólera foi escrito pelo grande Raduan Nassar, mais famoso por Lavoura Arcaica.  E qual a ligação de tomate com sal e Raduan Nassar? Caléu sabe, tanto sabe que o leitor atento pode perceber nessa passagem o domínio do autor sobre o texto, sua facilidade em brincar com as situações e ao mesmo tempo render homenagem ao escritor paulista que em Um Copo de Cólera assim escreveu no capítulo “A Chegada”: “(...) tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida para mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, (...)”.

Caléu merece ser lido. Sua literatura fraturada não precisa conserto, deve permanecer contundente, perturbadora e agressiva.

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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literárias.blogspot.com.br. É autor do livro “Na Linha da Loucura”, publicado em 2014, pela Editora Minarete/Legere (www.facebook.com/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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