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"O Útimo Homem Branco", Mohsin Hamid

PROMETE MAS NÃO ENTREGA

Cristian Luis Hruschka

 

HAMID, Mohsin. O Último Homem Branco, São Paulo: Companhia das Letras, 2023, 134 páginas (Tradução: José Geraldo Couto).

 

Lançado em 2022, o livro de Mohsin Hamid foi recebido como um sucesso de crítica. Nascido no Paquistão, o escritor já viveu na Califórnia, Nova Iorque e Londres, sendo colaborador de jornais como The New York Times e Washington Post.

O livro conta a história de Anders, um homem branco que, em certa manhã, ao acordar, “descobriu que tinha adquirido uma profunda e inegável tonalidade marron”.

A temática proposta é muito inteligente e gera controvérsias das mais variadas, principalmente quanto à intolerância racial. Escrito de maneira arrastada, o livro não prende o leitor e, na minha singela opinião, assim segue até o final.

A ideia de abordar uma questão tão importante, com grande clamor social e por muitos tida como apavorante por colocar em xeque a “supremacia do homem branco”, que estaria sendo derrubada por uma inexplicável modificação de cor da pessoas, realmente é fantástica, porém, entendo que a história poderia ser melhor explorada.

O enredo se desenvolve acompanhando a vida do personagem principal e sua relação com Oona, que no início não passava de uma transa furtiva mas cujo romance vai ganhando corpo no decorrer da trama. Eles passam a conviver com o gradativo "enegrecimento” das pessoas que, por não ser padronizada, vai atingindo indistintamente a população. A cada dia novas pessoas passam a ter a pele escura.

Nessa relação entre Anders e Oona, o contato deles com os pais (mãe dela e pai dele), bem como colegas de trabalho, demonstram como a questão vai sendo tratada sem muito espanto pelos protagonistas, de maneira inevitável e apática. As revoluções sociais, no entanto, se tornam mais eriçadas e, na contramão do que costuma acontecer, a população branca é obrigada a se render à essa mudança que não permite qualquer resistência.

“Havia irrupções de violência na cidade, uma pancadaria aqui, um tiroteio ali, e o prefeito pediu calma repetidas vezes, mas militantes tinham começado a aparecer nas ruas, militantes de pela clara, alguns vestidos quase como soldados em uniforme de combatem ou como soldados pela metade, com calças em estilo militar e jaquetas civis, e outros vestidos como caçadores, em cores silvestres, ou de jeans e coletes de atirador, mas rodos militantes, quaisquer que fosses seus trajes, visivelmente armados, e quanto à polícia, ora, a polícia não fazia nenhum esforço real para barrá-los.” (pág. 51)

O livro começa morno e termina quase frio. Além de ser uma leitura que não empolga, o estilo de escrita do Hamid não me agrada. Não sou crítico literário, os estudados que me desculpem se escrevo alguma bobagem, mas o uso abusivo da conjunção “e” para ligar palavras e orações deixa o texto pobre e chato. Vejam:

“Ela o provocou dizendo que lhe caía bem, querendo dizer a aparência dele agora, e ele disse eu sei que sim, e eles riram, e ele disse cai bem a você também, e ela disse é sério, e ele disse sim, e acrescentou você parecia faminta demais antes, e ela perguntou e agora, e sorriu mais um pouco, seu sorriso cada vez maior.” (pág. 124)

Em outro trecho o nome da personagem Oona é citado 15 (quinze) vezes em um único parágrafo!!! (pág. 97).

Entendo que precisamos respeitar o estilo de cada escritor, sua maneira de apresentar o texto e a “licença poética”, mas com certeza essa forma de escrita, caso utilizada em qualquer redação do colégio, com diálogos desorganizados, sem travessão, frases extensas e cansativas, causaria arrepios na professora ginasial de português.

Enfim, o livro promete ser muito bom, mas não é! A crítica deve gostar de Mohsin Hamid.

Ah, aqui vai um spoiler! Anders não é o último homem branco, mas sim seu pai,

“o pálido pai de Anders era a única pessoa pálida presente, a única pessoa pálida restante em toda a cidade, pois àquela altura não havia outras, e então seu caixão foi fechado e seu funeral aconteceu e seu corpo foi entregue ao solo, o último homem branco, e depois disso, depois dele, não houve mais nenhum.” (pág. 111).

Não gostei. Abraço!

 

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.


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