A DEFESA DO FILÓSOFO
Cristian Luis Hruschka
PLATÃO. A Apologia de Sócrates (Série Clássicos Edipro), 3ª ed., São Paulo: Edipro, 2019, 78 páginas (tradução: Edson Bini)
A Apologia de Sócrates, de Platão, é uma obra que
ultrapassa os limites de um simples relato judicial e se afirma como um marco
da filosofia ocidental. Historicamente, o texto nos transporta para Atenas em
399 a.C., quando Sócrates foi acusado de impiedade e de corromper a juventude.
O termo “apologia” vem do grego apología, que
não quer dizer “pedido de desculpas”, mas sim justificação
ou discurso em defesa própria. É isso que Sócrates faz ao ser
julgado por não reconhecer os deuses da cidade, introduzir novas divindades, “corromper”
os jovens. Essas acusações, porém, tinham um pano de fundo político e social
muito mais complexo e a defesa de Sócrates, compilada por Platão, um dos seus
discípulos, busca registrar os argumentos filosóficos e morais de um homem que
preferiu morrer a abandonar sua missão de buscar a verdade.
Platão não atuou no julgamento de Sócrates como um
“taquígrafo” para anotar e transcrever sua defesa. O que temos na Apologia
de Sócrates é um relato literário e filosófico escrito por Platão
posteriormente. Ainda que no próprio texto da Apologia
Platão aparece citado por Sócrates como estando presente no julgamento, isso
não significa que tenha feito uma transcrição literal. A obra é
considerada uma reconstrução filosófica, na qual Platão registra a essência da defesa
socrática, mas com estilo literário e reflexões próprias.
Entre as acusações que pesavam sobre Sócrates, oportuno
destacar que não refletiam apenas o desconforto da cidade com a postura crítica
do filósofo, mas também o temor de que sua influência sobre os jovens — muitos
deles filhos de cidadãos importantes — pudesse desestabilizar valores
tradicionais.
No entanto, Platão deixa claro que esses jovens acompanhavam
Sócrates por livre vontade, sem qualquer coação, atraídos pela oportunidade de
aprender com o mestre a questionar a existência humana, buscar a justiça e refletir
sobre a felicidade.
Do ponto de vista filosófico, a Apologia revela o método socrático e sua missão de vida: provocar reflexões, expor contradições e despertar os cidadãos para a virtude.
Sócrates apresenta o “daimonion”, a voz interior que o
impede de agir de forma injusta, e insiste que a verdadeira sabedoria está em
reconhecer a própria ignorância.
"É uma espécie de voz que me ocorre e sempre que ocorre me detém quanto a alguma coisa que me proponho a fazer, enquanto nunca me incita a fazer coisa alguma" (página 55)
Sua defesa não é jurídica, mas filosófica, pois, ele não
procura salvar-se por meio da retórica, mas reafirmar sua missão de examinar a
vida e mostrar que a vida não examinada não merece ser vivida.
Moralmente, a obra é um manifesto sobre integridade e fidelidade aos princípios. Sócrates recusa-se a abandonar sua postura crítica mesmo diante da condenação à morte, mostrando que a justiça e a virtude estão acima da sobrevivência física. Um trecho emblemático reforça essa visão:
“Um homem que realmente luta pela justiça
tem que levar uma vida privada, e não pública, caso queira sobreviver mesmo que
por um efêmero momento” (página 56).
Essa passagem é crucial porque revela a crítica socrática à
vida política ateniense, dominada por interesses e conveniências. Sócrates
reconhece que a prática da justiça verdadeira dificilmente se sustenta na
esfera pública, e por isso escolhe a filosofia como caminho de preservação da
integridade moral. Essa reflexão continua atual, pois questiona até hoje a
relação entre ética e poder político.
Assim, A Apologia de Sócrates é, ao mesmo tempo, testemunho histórico, obra filosófica e lição moral. Platão transforma a defesa de seu mestre em um texto que atravessa os séculos como símbolo da coragem intelectual e da fidelidade à verdade.
Ao final, quando Sócrates já sabia que seu destino estava selado,
despede-se de forma serena, sintetizando sua postura diante da morte e da vida:
“Mas agora é chegada a hora de partirmos.
Parto para a morte e vós para a vida. Entretanto, qual de nós caminha para
melhor sorte é algo que somente deus sabe” (página 78)
Excelente livro para quem pretende
iniciar os estudos em filosofia.

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