A CIDADE
DE BAIXO
Cristian
Luis Hruschka
SÖNMEZ,
Burhan. Istambul Istambul. Tradução de Tânia Ganho. Rio de
Janeiro: Tabla, 2021. 320 p.
Como
sobreviver quando o corpo está trancado em uma cela escura e a dor é a única
certeza do dia seguinte? É possível escapar de um cárcere sem atravessar suas
paredes? Essas perguntas acompanham toda a leitura de Istambul Istambul,
terceiro romance do escritor turco Burhan Sönmez, publicado originalmente em
2015 e trazido ao Brasil pela editora Tabla, com tradução de Tânia Ganho
.
Quatro
homens dividem uma cela minúscula no subsolo de Istambul: o estudante Demirtay,
o Doutor, o barbeiro Kamo e o velho tio Küheylan. Estão presos por razões
políticas, tratados pelo Estado como subversivos, e entre uma sessão de
interrogatório e outra só lhes resta esperar. Para suportar a espera, contam
histórias. São dez dias e dez capítulos, cada um narrado por um dos prisioneiros.
A
diferença é que os narradores de Sönmez não estão protegidos em uma casa de
campo, mas enterrados a poucos metros de uma cidade que segue sua vida
normalmente. Lá em cima está a Istambul luminosa, cortada pelo Bósforo, com
suas gaivotas, mesquitas, cafés e turistas; embaixo, a Istambul úmida,
silenciosa e escondida, onde a violência do Estado trabalha longe dos olhos de
todos.
O título
repetido não é mero capricho, pois, são duas cidades diferentes situadas no
mesmo lugar, e uma só ganha sentido quando vista a partir da outra. Mais do que
isso, cela e cidade se confundem, como observa um dos narradores:
“Istambul era uma cidade com um milhão de celas e cada cela era, por si só, uma Istambul inteira. Uma parte constituía o todo e o todo, uma parte” (p. 309).
As
histórias contadas na cela são bastante simples. Não há grandes epopeias nem
discursos filosóficos elaborados, mas anedotas, memórias de infância, o sabor
de uma comida antiga, tipos populares das ruas e pequenos episódios do
cotidiano. É justamente aí que mora a força do livro. O trivial funciona como
válvula de escape e como anestesia passageira para a dor do corpo. Se a tortura
pretende reduzir o homem à um pedaço de carne, rir de uma piada ou lembrar o
cheiro de uma padaria é a maneira que esses prisioneiros encontram de afirmar
que continuam humanos.
O ápice
poético da obra está na cena em que os quatro, sem sair da cela, se imaginam à
beira do Bósforo. Servem uns aos outros o rakı, a bebida de anis que
fica esbranquiçada ao receber água e que os turcos chamam de “leite de leão”,
brindam, saboreiam petiscos inexistentes e contemplam os cartões-postais da
cidade lá de cima. Por alguns instantes o concreto vira mesa de bar, e os
corpos machucados são esquecidos. Nas entrelinhas é possível perceber a
mensagem que Sönmez quer passar, qual seja, de que o Estado pode prender e
ferir a carne, mas não alcança o pensamento nem o afeto.
Ao lado da
poesia, porém, convive um horror psicológico constante. A tortura não começa na
sala de interrogatório, mas na espera. O ruído dos passos no corredor, o
tilintar das chaves e o ranger do portão de ferro anunciam que alguém será
levado, mas não se sabe quem. Essa incerteza mantém os prisioneiros em alerta
permanente e desgasta tanto quanto a dor física. O terror da tortura chega
pelos sons e pelo estado em que os companheiros retornam. A escuridão do
subsolo, para o autor, não é apenas física; ela também habita o interior de
cada um:
“Essas
mesmas paredes existem tanto nas cidades como nas pessoas. Se as profundezas da
cidade eram obscuras, obscuras também eram as profundezas das pessoas. Úmidas e
frias. Ninguém queria mergulhar na escuridão que havia dentro de si e
confrontar a si mesmo” (p. 64).
O romance
não fixa uma data precisa, mas é impossível não relacioná-lo com a história
recente de tensão política na Turquia e com a trajetória do próprio autor.
Nascido em 1965, em Haymana, no interior da Anatólia, e de origem curda, Sönmez
foi preso quando ainda era estudante e voltou a ser detido quando atuava como
advogado de direitos humanos. Mais tarde, gravemente ferido após uma agressão
policial, viveu alguns anos exilado no Reino Unido. A cela de Istambul
Istambul não é, portanto, uma invenção distante.
Também é
impossível, para o leitor brasileiro, não pensar no regime militar. Os relatos
reunidos em Brasil: Nunca Mais descrevem a mesma angústia diante das som
das botas no corredor, das portas de ferro. Os porões do DOI-CODI e do DOPS
funcionavam no coração de São Paulo e do Rio de Janeiro, localizados a poucos
metros de pessoas que seguiam com sua rotina. A literatura brasileira já tratou
dessa proximidade entre o cotidiano e o horror, como em K.: relato de uma
busca, de Bernardo Kucinski, já resenhado nesse espaço. O livro de Sönmez,
assim, ultrapassa a Turquia e fala de qualquer lugar onde o autoritarismo
escondeu a violência sob a vida comum da cidade.
Há ainda
no livro uma delicadeza inesperada. Em certo momento, uma moça chamada Zinê
Sevda é jogada, ferida, na cela em frente à dos quatro homens. O contato entre
eles se faz à distância, por olhares através da pequena grade da porta e por
palavras sussurradas no corredor. Os homens sofrem quando Zinê é levada ao
interrogatório e passam a se preocupar com ela como se fosse alguém da família.
É uma empatia sem toque, construída entre pessoas que mal se conhecem, num
ambiente desenhado justamente para isolar e quebrar o indivíduo. A mesma
solidariedade aparece entre os próprios companheiros de cela, que se amparam a
cada retorno de quem foi levado.
Burhan
Sönmez é hoje uma das vozes mais importantes da literatura turca contemporânea,
tendo sido eleito presidente do PEN Internacional, entidade que defende a
liberdade de expressão e escritores perseguidos ao redor do mundo. Estreou no
romance com Kuzey (2009), recebeu o prêmio Sedat Simavi por Masumlar
(2011) e publicou depois Labirent e Taş ve Gölge. Ainda assim, Istambul
Istambul é seu livro de maior projeção, sendo traduzido para mais de
quarenta idiomas, tendo vencido em Londres a primeira edição do prêmio
literário do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (EBRD).
Sönmez
pega um tema terrivelmente pesado, a dor e o cárcere, e o transforma em uma
obra poética e humanista, sem cair no panfleto político. Por outro lado, a
estrutura fragmentada e as histórias que se sobrepõem exigem paciência, e
algumas delas parecem soltas, quebrando o ritmo da narrativa. Quem procura um
romance histórico, com nomes, datas e explicações sobre quem prende e por quê,
pode se frustrar, pois o autor deliberadamente deixa esse contexto em segundo
plano.
Enfim, um
livro sensível e necessário, que mostra como a memória, a imaginação e o afeto
podem resistir mesmo nas condições mais desumanas. Leitura recomendada para
lembrarmos que, debaixo de toda cidade bonita, pode existir outra cidade que se
prefere não ver.
CRISTIAN
LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do
livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere
(www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.
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