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"O Conto da Ilha Desconhecida", José Saramago

 


A Ilha Desconhecida de Cada Um

 

Cristian Luis Hruschka

 

SARAMAGO, José. O Conto da Ilha Desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, 62 páginas.

 

Sempre tive a certeza de que o livro não se mede pelo tamanho, mas sim pelo conteúdo. É como um perfume; os melhores estão nos menores frascos. A literatura é assim. Livros curtos como A Metamorfose de Kafka e O Estrangeiro de Camus são exemplos disso: obras excelentes em poucas páginas. Lógico, não estou desprezando os gigantes como Dom Quixote, O Senhor dos Anéis e Guerra e Paz, mas nem sempre há necessidade de escrever tanto para contar uma história fascinante.

 

Com O Conto da Ilha Desconhecida não é diferente. Nessa pequena obra, o Nobel da Literatura José Saramago nos traz um enredo fascinante. Foi neste livro que cunhou a conhecida citação: “É necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós” (pág. 41). A frase resume a essência da narrativa, qual seja, a busca por aquilo que não está nos mapas, mas dentro de nós mesmos.

 

O conto começa com um homem que insiste em pedir ao rei um barco para procurar uma ilha desconhecida. O rei, incrédulo, ironiza dizendo que todas ilhas são conhecidas e já estão nos mapas. Mas o homem responde que, se pudesse indica-la ao rei, a ilha já não seria desconhecida. Essa insistência revela a coragem de desafiar o óbvio e de acreditar que há sempre algo além do que nos dizem ser possível.

 

A história ganha profundidade com a entrada da mulher da limpeza na trama. Ela acompanha o homem na sua insistência em falar com o rei e, quando este consegue ganhar o barco, decide largar o balde e seguir com ele. A passagem parece simples, porém, simboliza a coragem de abandonar a rotina e se lançar sem destino ao desconhecido. Não há paixão arrebatadora entre eles, mas sim cumplicidade e confiança. É como se Saramago dissesse que o autoconhecimento não acontece isolado, precisamos da companhia do outro para nos descobrirmos plenamente. A ilha, portanto, não é apenas o destino de um homem, mas o espaço compartilhado de uma experiência humana.

 

Esse tema da busca interior não é exclusivo deste conto. Em O Homem Duplicado, Saramago explora a inquietação de um professor que descobre existir alguém idêntico a si, metáfora para a necessidade de confrontar a própria identidade. Em Ensaio sobre a Cegueira, livro magnífico que explora a condição humana, a epidemia que priva todos da visão expõe a essência dos homens, mostrando que só ao perder o que julgamos garantido podemos enxergar quem realmente somos. Já em Todos os Nomes, a obsessão de um funcionário por uma mulher desconhecida revela a luta contra a burocracia e a busca por sentido em meio ao anonimato. Em todos esses casos, assim como na ilha, o que está em jogo é a descoberta do eu interior diante do absurdo ou da falta de respostas prontas.

 

O estilo de Saramago, com frases longas e diálogos fundidos à narração, reforça a ideia de travessia. O leitor é levado a navegar junto com os personagens, sem pausas rígidas, como se estivesse dentro da mente deles. O conto não oferece respostas definitivas, mas abre espaço para que cada leitor imagine sua própria ilha desconhecida.

 

Em poucas páginas, Saramago nos entrega uma obra que é ao mesmo tempo simples e profunda. O Conto da Ilha Desconhecida nos lembra que viver é navegar, que a essência humana só se revela quando ousamos sair de nós mesmos, e que a coragem de partir é tão importante quanto o destino. É um livro breve, mas que permanece como um convite permanente à reflexão e à aventura interior.

 

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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