Pular para o conteúdo principal

“Cartas do Everest”, Airton Ortiz

SUBIDA AO TOPO DO MUNDO
Cristian Luis Hruschka

CARTAS DO EVEREST, Airton Ortiz, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2008.

Lançado em 2008, o livro “Cartas do Everest” é a única obra ficcional do escritor gaúcho Airton Ortiz. Mais conhecido por seus livros de reportagem e precursor do gênero “jornalismo de aventura”, Ortiz lançou pela Editora Record livros de sucesso como “Em Busca do Mundo Maia”, “Na Trilha da Humanidade”, “Na Estrada do Everest” e “Cruzando a Última Fronteira”, todos integrantes da coleção “Viagens Radicais”. Neles são relatadas as aventuras do escritor pelo mundo, desbravando lugares exóticos em meio a natureza.

“Cartas do Everest” relata a tentativa de Claudio Adônis Montenegro, na companhia de mais dois alpinistas, um americano e outro alemão, em conquistar o cume da montanha mais alta do planeta.

Os capítulos são intercalados entre cartas e fragmentos do diário de Cláudio, onde o leitor pode acompanhar suas adversidades e a beleza encontrada pelo caminho. São abordados, ainda, conflitos emocionais e inerentes à natureza humana:

“Para ter sucesso é preciso estar motivado. Se a motivação for excessiva, é provável que se morra. Há uma febre que costuma atingir os aplinistas menos experientes, a Febre do Cume. Quando uma pessoa está muito perto de alcançar o objetivo, especialmente após um esforço físico penoso, sente uma grande euforia capaz de cegar os olhos para os riscos e, simplesmente, seguir em frente.

Não saber a hora de parar, respirar, analisar com calma e, se preciso for, voltar, pode ser o fim. Não só no alpinismo como em todas as circunstâncias da vida. O excesso de autoconfiança, como todos os excessos, pode matar. Lições que valem por uma vida, quer seja no mar ou na terra.”

O sentimento de companheirismo, luta e conquista são relatados de maneira bastante exaustiva, notando-se que o autor procura passar ao personagem emoções já vividas por ele. Todavia, diversamente de seus livros jornalísticos, “Cartas do Everest” não consegue prender o leitor de forma tão apaixonada, face a dificuldade de impor à obra sentimentos e emoções tão íntimas aos aventureiros, sem falar na riqueza de detalhes e informações que a pesquisa para um texto jornalístico e de reportagem exigem.

Em outubro passado o autor lançou “Havana” (Ed. Record), integrante da coleção “Expedições Urbanas”, retomando com vigor sua veia jornalística, ainda que em forma de crônicas. Busca, assim, voltar ao seu melhor estilo.

__________________

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Mossad - Os Carrascos do Kidon", Eric Frattini

EM NOME DE ISRAEL Cristian Luis Hruschka FRATTINI, Eric. Mossad os carrascos do Kidon: a história do temível grupo de operações especiais de Israel. 1a. Ed., São Paulo: Ed. Seoman, 392 pág. Referenciado por uns e considerado por outros como sendo um grupo terrorista de Israel, o Mossad consiste no mais avançado e treinado serviço de investigação israelense. Criado em 1951, teve como proposta inicial vingar os judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente seis milhões, e combater os inimigos de Israel em todo e qualquer lugar do planeta. O "Kidon", por sua vez, é a unidade "secreta"do Mossad, este vinculado ao Metsada, responsável pelas operações especiais de Israel. Sua norma básica de atuação é: "Não haverá matança de líderes políticos; estes devem ser tratados através dos meios políticos. Não se matará a família dos terroristas; se seus membros se puserem no caminho, não será problema nosso. Cada execução tem de ser autoriza...

"O Vermelho e o Negro", Stendhal

VIDA E MORTE DE UM ELEGANTE CAMPONÊS Cristian Luis Hruschka STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016, 544p. Tradução: Raquel Prado (edição especial encomendada pela TAG para seus associados) Não vou entrar em detalhes críticos, acadêmicos ou políticos. Tudo já foi dito de "O Vermelho e o Negro", livro maior do escritor francês Stendhal. Publicado em 1830, Le Rouge et le Noir conta a breve vida de Julien Sorel, camponês pobre do interior da França que busca projeção na sociedade. Para tanto, socorre-se de sua beleza e inteligência e desde cedo começa a trabalhar como preceptor dos filhos do Sr. de Rênal, pessoa influente na sociedade local. Sorel, personagem muito interessante, logo conquista todos com sua polidez e habilidade nas letras. Tendo decorado a Bíblia, não demora para atrair todos os olhares para si, inclusive da Sra. de Rênal, com quem passa a envolver-se em segredo. Esse relacionamento amoroso é muito sutil, não havendo no li...

"O Conto da Ilha Desconhecida", José Saramago

  A Ilha Desconhecida de Cada Um   Cristian Luis Hruschka   SARAMAGO, José. O Conto da Ilha Desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, 62 páginas.   Sempre tive a certeza de que o livro não se mede pelo tamanho, mas sim pelo conteúdo. É como um perfume; os melhores estão nos menores frascos. A literatura é assim. Livros curtos como A Metamorfose de Kafka e O Estrangeiro de Camus são exemplos disso: obras excelentes em poucas páginas. Lógico, não estou desprezando os gigantes como Dom Quixote , O Senhor dos Anéis e Guerra e Paz , mas nem sempre há necessidade de escrever tanto para contar uma história fascinante.   Com O Conto da Ilha Desconhecida não é diferente. Nessa pequena obra, o Nobel da Literatura José Saramago nos traz um enredo fascinante. Foi neste livro que cunhou a conhecida citação: “É necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós” (pág. 41). A frase resume a essência da narrativa, qu...