A LIÇÃO DE 1177 A.C.
Cristian Luis Hruschka
CLINE, Eric H. 1177 A.C: o ano em que a civilização entrou em colapso.
São Paulo: Avis Rara: 2023, 224 páginas (tradução: Fábio Alberti)
A história por muito tempo tratou a queda da Idade
do Bronze no Mediterrâneo antigo como uma tragédia rápida causada por invasores
cruéis e misteriosos. No entanto, no livro 1177 a.C.: O Ano em que a
Civilização Desabou, o arqueólogo Eric H. Cline mostra que a realidade
foi bem diferente.
O fim de civilizações grandiosas como os micênicos,
hititas e egípcios, não aconteceu por causa de um único golpe, mas de um
conjunto de fatores que uniu desastres em várias frentes ao mesmo tempo. Entre eles
estão a fome, doenças, invasões e conflitos comerciais, sendo que “o
principal fator desencadeador foi a mudança climática manifestada na forma de
megasseca no Egeu e no Mediterrâneo Ocidental, bem como possíveis secas em
outros lugares” (p. 194).
O grande trunfo da obra é mostrar que o mundo
antigo já vivia uma espécie de globalização. Povos que habitavam o Egito,
Grécia, Anatólia (atual Turquia), Síria entre outros do Oriente Próximo, dependiam
uns dos outros para comerciar mercadorias vitais, como o cobre e o estanho,
necessário para a produção do bronze. O problema é que essa mesma conexão, que
gerava riqueza, virou um dos grandes problemas da época, pois, quando uma peça dessa
engrenagem quebrava, o estrago se espalhava rapidamente.
“É
evidente que havia muito contato entre o Egito, o Oriente Próximo e o Egeu
durante a Idade do Bronze Recente, e sem dúvida ideias e inovações eram às
vezes transportadas como mercadorias” (p. 74)
Outro mito que o livro derruba é o dos "Povos
do Mar".
Longe de serem exércitos organizados e desumanos
com o único objetivo de destruir e saquear tudo, essas pessoas eram, na
verdade, em sua maioria (claro, também haviam os sanguinários!), migrantes e
refugiados.
Fugindo da fome, de secas e de colapsos em suas
terras natais, eles cruzaram o Mediterrâneo em busca de sobrevivência e acabavam
por se misturar com a população dos grandes centros. Desse modo, a violência
que porventura geraram foi o reflexo desesperado de um mundo que já estava
ruindo.
Fato é que as migrações dos chamados Povos do Mar, “continuam
mais enigmáticas e difíceis de precisar do que nunca” (p. 159), sendo que “os escavadores não
apresentam nenhuma prova definitiva relacionada ao propósito dos Povos do Mar”
(p. 162).
Assim, na prática, o colapso aconteceu porque
múltiplos problemas bateram à porta de uma só vez. Como dito, as secas
prolongadas, uma série devastadora de terremotos, rotas comerciais bloqueadas,
revoltas populares e a pressão de populações em fuga, contribuíram para que o
então mundo conhecido entrasse em falência. Nesse sentido, têm-se que quando um
sistema se torna rígido demais, ele perde a capacidade de absorver tantos
choques simultâneos e acaba desmoronando.
Olhar para 1177 a.C. nos faz pensar inevitavelmente
no mundo de hoje. Afinal, nossa sociedade globalizada, cheia de tecnologia,
internet e cadeias logísticas internacionais, está segura de um destino
parecido? Ou será que quanto mais conectados estamos mais vulneráveis ficamos? Hoje
uma crise climática ou um conflito em determinadas regiões estratégicas do mundo,
reverbera no globo em forma de inflação, falta de produtos e instabilidade.
Quando EUA e Irã resolvem brigar pelo estreito de Ozmur, por exemplo, os
reflexos são mundiais.
A boa notícia é que não estamos totalmente desamparados.
Temos ciência, dados e consciência histórica para mapear esses riscos antes que
se tornem incontroláveis. Além disso, a história mostra que o colapso do
passado não significou o fim da humanidade, mas uma grande transformação.
Fica o alerta, porém, de que opulência e tecnologia
avançada não são garantias eternas de sobrevivência, tampouco evita em
definitivo tropeçar nos mesmos erros do passado. O que precisamos é a construir
resiliência antes que os choques do mundo moderno fiquem grandes demais para
administrarmos, ou seja, preservação do meio ambiente e boas relações
internacionais são importantíssimas, evitando-se por completo tentativas de
quebra de soberania e submissão de um povo ao outro.
O livro de Cline nos convida a conhecer uma época histórica pouco
divulgada, mas que traçou linhas importantes para o futuro. Estamos falando de
fatos ocorridos a milhares de anos antes da vinda de Cristo. Uma história
difícil de ser comprovada e que por isso exige esforços constantes de
arqueólogos e estudiosos.
Para aqueles que gostam do tema, importante frisar que o livro se divide
praticamente em duas partes. A primeira metade abordando os sítios
arqueológicos e povos antigos e a segunda mais voltada aos “famigerados” Povos
do Mar.
A leitura é instigante e nos faz refletir sobre os tempos atuais e o
movimento geopolítico. Muitos sinais são evidentes de um novo colapso. Resta
saber quando isso irá acontecer!
CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e
advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere
(www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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