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"Sociedade do Cansaço", Byung-Chul Han

 


O Peso Invisível da Liberdade

 

Cristian Luis Hruschka

 

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. 3ª ed. (3ª reimpressão, 2026), Petrópolis: Vozes, 2024, 126 páginas (tradução: Enio Paulo Giachini)

 

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, tornou-se uma das vozes mais inquietantes da filosofia contemporânea ao diagnosticar as patologias sociais que moldam nosso tempo.

 

Em Sociedade do Cansaço ele nos apresenta um ensaio breve, mas de impacto profundo, que revela uma mudança silenciosa e devastadora, qual seja, a transição da “sociedade disciplinar”, marcada pela obediência e pela repressão, para a “sociedade de desempenho”, regida pelo excesso de positividade e pela autoexploração.

 

“A autoexploração é muito mais eficiente que a exploração estranha, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.

(...)

Aqui não entra o outro como explorador, que me obriga a trabalhar e que me explora. Ao contrário, eu próprio exploro a mim mesmo de boa vontade na fé de que possa me realizar. E eu me realizo na direção da morte. Otimizo a mim mesmo para a morte. Nesse contexto não é possível haver nenhuma resistência, levante ou revolução.” 

(Pág. 114-115).

 

Han parte da constatação de que já não vivemos sob o jugo de chefes autoritários ou normas rígidas, mas sob uma lógica invisível que faz com que passemos a exigir cada vez mais de nós.

 

Com o tempo as relações trabalhistas passaram a inverter uma regra clássica: o empregador é quem deve cuidar dos seus empregados e não deixar que estes se exterminem entre si, como se fosse uma questão antropofágica.

 

O lema “você pode” substitui o antigo “você deve”, mas essa aparente liberdade é apenas uma forma mais sofisticada de coerção. O indivíduo se cobra, se vigia e se desgasta, acreditando estar no comando, quando na verdade está preso a uma engrenagem que exige produtividade infinita.

 

Essa inversão é cruel porque o trabalhador não passa apenas a executar suas tarefas, mas assume para si o ônus da própria saúde, da própria performance e até do próprio fracasso.

 

“A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retrocesso.

(...)

As mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem.” 

(Pág. 29-30).

 

O ponto mais contundente da obra é a descrição da autodestruição do trabalhador. Doenças como Burnout, depressão e ansiedade, não podem ser consideradas comuns, mas sim presságios de um sistema que transforma o excesso em virtude. O corpo e a mente se tornam campos de batalha, onde o sujeito luta contra si mesmo em busca de uma performance sem fim.

 

Essa naturalização do cansaço é talvez o aspecto mais perturbador, pois o desgaste passa a ser visto como normal, quase inevitável, como se fosse parte indissociável da vida moderna. O livro é reflexivo e ao longo da leitura emergem debates que não podem ser ignorados.

 

Mesmo em países com legislação trabalhista rígida, como o Brasil, há uma tendência de transferir ao trabalhador a condução da própria saúde laboral. O ônus da empresa é repassado ao indivíduo, que passa a ser responsabilizado por manter-se saudável e produtivo. Aceitar essa lógica significa enfraquecer conquistas coletivas, como limites de jornada e proteção contra doenças ocupacionais, neutralizando décadas de luta por direitos. É um retrocesso histórico disfarçado de protagonismo individual. A sociedade de desempenho, ao normalizar a hiperperformance, ameaça corroer não apenas a saúde mental, mas também o sentido coletivo das conquistas trabalhistas.

 

Han sugere que combater essa sociedade é preservar a dignidade do trabalho e a saúde coletiva. A resistência não está em produzir mais, mas em recuperar o valor do ócio, da contemplação e da alteridade. É preciso reaprender a viver fora da lógica da hiperperformance, resgatar o espaço do silêncio e da pausa como formas de resistência ao excesso de produtividade. Essa proposta pode parecer utópica, mas é justamente no gesto de desacelerar que reside a possibilidade de romper com a engrenagem invisível que nos aprisiona. O trabalhador deve ter direito a desconexão, contudo, não é esse o momento que vivemos, onde o importante é mostrar felicidade e realização, ainda que isso não passe de uma grande falsidade.

 

“Hoje em dia, as coisas só começam a ter valor quando são vistas e expostas, quando chamam a atenção.

(...)

Sim, hoje nos fazemos importantes nas redes sociais, no Facebook. Nós produzimos informações e aceleramos a comunicação na medida em que nos ‘produzimos’, nos fazemos importantes. Nós ganhamos visibilidade, expomo-nos como mercadorias.

(...)

O hipercapitalismo transforma todas as relações humanas em relações comerciais. Ele arranca a dignidade do ser humano, substituindo-a completamente pelo valor de mercado.” 

(Pág. 124-125)

 

O estilo de Han é conciso, mas sua força está na capacidade de provocar desconforto intelectual. Ele não oferece soluções práticas, mas lança diagnósticos que incomodam e obrigam o leitor a olhar para o cotidiano com desconfiança. A obra traz um olhar singular sobre o presente hiperconectado, onde a tecnologia, a transparência e a cultura da performance moldam subjetividades e corroem relações humanas. Han não escreve para confortar, mas para desestabilizar; não para oferecer respostas, mas para abrir fissuras no que consideramos normal.

 

Sociedade do Cansaço é um espelho incômodo da nossa época. Revela como a liberdade aparente se converte em obrigação, como o trabalhador se torna cúmplice da própria exploração e como a saúde mental é sacrificada em nome da performance.

 

Aceitar essa realidade seria legitimar a autodestruição como destino. Por isso, a sociedade do desempenho deve ser combatida, não apenas para preservar direitos conquistados, mas para resgatar a dignidade humana diante de um sistema que transforma o cansaço em virtude e a vida em mera contabilidade de resultados.

 

Han nos lembra que resistir é possível, sendo que o verdadeiro desafio contemporâneo não é produzir mais, mas reaprender a viver. Sociedade do Cansaço não nos oferece respostas prontas, pelo contrário, nos obrigar a encarar o peso invisível da liberdade e a perguntar se estamos dispostos a continuar aceitando o cansaço como destino ou se teremos coragem de reinventar o sentido da vida.

 

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.


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