Entre o homem, o lobo e o riso
Cristian Luis Hruschka
HESSE, Hermann. O Lobo da Estepe, 63ª ed., São Paulo: Editora Record,
2025, 250 páginas (tradução: Ivo Barroso)
Publicado em 1927, “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, é um dos
romances mais marcantes da literatura do século XX. A obra mergulha na crise
existencial de Harry Haller, um intelectual de 50 anos, culto e financeiramente
estável, mas atormentado por um vazio interior que o leva a considerar o
suicídio como única saída.
Logo nas primeiras páginas, Hesse introduz reflexões que ampliam esse
dilema:
“Mas entre eles surgiu também a ideia de
que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de
Deus destinado à imortalidade.” (Pág. 58)
Esse trecho revela a tensão central da obra: o homem não se reduz à
racionalidade, mas pode aspirar à transcendência. Harry, no entanto, permanece
dividido entre sua parte humana e sua parte “lobo”, selvagem e solitária.
A obsessão pela morte é recorrente, mas o romance não a romantiza. Hesse
escreve:
“Cada um deles sabe muito bem, em algum
canto de sua alma, que o suicídio, embora seja uma fuga, é uma fuga mesquinha e
ilegítima, e que é mais nobre e belo deixar-se abater pela vida do que por sua
própria mão.” (Pág. 63)
Aqui, o suicídio aparece como fuga indigna, contraposto à coragem de
enfrentar a vida. Essa reflexão prepara o terreno para a transformação de
Harry, conduzida por três personagens fundamentais: Hermínia, Maria e
Pablo.
Hermínia, prostituta mas sábia, funciona como alter ego e guia espiritual. Ela compreende as angústias de Harry e o introduz ao
prazer, à música e à vida boêmia. Em determinado momento, é Hermínia quem diz:
“Viveremos para acabar com a morte? Não,
viveremos para teme-la e também para amá-la, e precisamente por causa da morte
é que nossa vida vez por outra resplandece tão radiosa num breve instante.” (Pág. 139)
Maria, apresentada por Hermínia, representa a vivência concreta da
sensualidade e do afeto, quebrando preconceitos e ampliando sua experiência. Hermínia
é a teoria e Maria a prática!
Outro personagem, Pablo, o saxofonista, encarna a leveza e a arte,
conduzindo Harry ao “Teatro Mágico“, espaço simbólico onde ele descobre sua
multiplicidade interior.
No Teatro Mágico, Harry mergulha em um caleidoscópio de emoções,
devaneios e lembranças. Ali, percebe que não é apenas “homem” ou “lobo”, mas
uma infinidade de facetas. O riso surge como chave de transcendência: rir de si
mesmo é aceitar a complexidade da vida. Essa experiência marca a virada
definitiva, conforme se extrai do trecho abaixo:
“Creio que a luta contra a morte, a
obstinação absoluta do querer continuar vivo, seja a força motivadora que
impulsiona as vidas e atividades de todos os homens representativos.” (Pág. 116)
Aliás, é no “Teatro Mágico” que o protagonista encontra Mozart, sim, “Mozart”,
o músico, que deixa a trama mais rica e pitoresca, coroando a experiência de Harry para revelar que a vida não
precisa ser resolvida em termos absolutos, mas pode ser vivida com humor, arte
e aceitação da pluralidade.
Se antes a morte era obsessão, agora ele entende que a luta contra ela é
justamente o que dá sentido à vida.
“O Lobo da Estepe”, portanto, é mais do que um romance. É uma obra
filosófica, questionando se o homem é apenas razão ou também espírito.
O livro marcou gerações, servindo nos anos 1920 como denúncia da
alienação burguesa e nos anos 1960 como ícone da contracultura. Permanece atual
ao tratar da fragmentação do eu e da busca por transcendência em um mundo
marcado pelo consumo e pela solidão.
Hesse nos mostra que a saída não está na fuga, mas na aceitação da
pluralidade da existência. A jornada de Harry Haller é a jornada de todos nós
entre razão e instinto, entre morte e vida, entre desespero e riso.
“O Lobo da Estepe” é um espelho da alma moderna; um convite a rir de nós
mesmos para suportar e celebrar a vida.
CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e
advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere
(www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.
Trecho da obra:
“Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé
e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com
o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida e conduzido
para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo
mergulho no sofrimento, na timidez, no desespero, mergulhou até o pescoço, e tudo
que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de
então nos homens e em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o
valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou mais ar que respirasse. E a
morte por asfixia é uma morte muito dura.” (Pág. 173)

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