Pular para o conteúdo principal

"A Sonata de Kreutzer", Liev Tolstói

 



Escândalo que Atravessa o Tempo

 

Cristian Luis Hruschka

 

TOLSTÓI, Liev. A Sonata de Kreutzer, 2ª ed., São Paulo: Editora 34, 120 páginas (tradução: Boris Schnaidermann)

 

Publicado em 1889, A Sonata de Kreutzer é uma das obras mais polêmicas de Tolstói, escrita em um momento em que a Rússia vivia sob forte conservadorismo social e religioso.

 

Governada pelo czar Alexandre III, a sociedade russa era marcada pela repressão política e por rígidos valores morais, especialmente no que dizia respeito ao casamento e ao papel da mulher. Nesse contexto, o livro surgiu como uma afronta às convenções, expondo sem pudor os dilemas da vida conjugal e a corrosão provocada pelo ciúme e pela sexualidade.

 

Ao ser lançado, o romance causou enorme escândalo. A crítica ao casamento como instituição falida e hipócrita, somada à visão radical de que o desejo sexual corrompe o ser humano, chocou leitores e autoridades. A obra foi censurada em diversos países, inclusive na própria Rússia, mas ao mesmo tempo provocou debates intensos sobre moralidade, violência doméstica e emancipação feminina. Conservadores a consideraram perigosa e imoral, enquanto intelectuais progressistas viram nela uma crítica necessária às hipocrisias sociais.

 

Tolstói, em sua fase de crise espiritual, defendia que a verdadeira moralidade só poderia ser alcançada pela renúncia ao desejo carnal. Essa posição extrema, que ecoa no protagonista Pozdnyshev, levanta questões filosóficas sobre a natureza do amor e da liberdade, levando-nos a questionar se o casamento é uma prisão moldada pela moral social ou um espaço de realização humana.

 

Em certo momento, acreditando que sua vida iria melhor caso se mudassem para a cidade, Pozdnyshev relata que

 

“Na cidade um homem pode viver cem anos e nem perceber que já morreu e apodreceu há muito. Não há tempo para ninguém examinar a si mesmo, está tudo ocupado.” (pág. 62)  

 

A força da obra não pode ser dissociada da vida íntima de Tolstói. Seu casamento com Sofia Andreievna, embora longo e fecundo, foi marcado por conflitos, ciúmes e ressentimentos. Tolstói confessou infidelidades antes do matrimônio e, já na maturidade, passou a defender a abstinência sexual, considerando o desejo carnal como fonte de corrupção moral.

 

O casamento sufoca Pozdnyshev, que em sua narrativa durante uma viagem de trem, relata ao interlocutor as amarguras da convivência a dois, a dissimulação, o ódio, relatando que para encerrar esse drama vivido entre quatro paredes somente a devassidão, o divórcio, o suicídio ou o assassinato do cônjuge.

 

“Insisto: todos os maridos que vivem como eu vivia têm que se entregar à devassidão, divorciar-se ou matar a si mesmo e a esposa, como eu fiz.” (pág. 67)

 

Ao mesmo tempo que relata todas as dificuldades de convivência, nosso personagem acaba cedendo aos encantos da reconciliação, ainda que esta dure pouco tempo antes de voltarem as brigas.

 

A situação piora quando surge Trukhatchévski, com quem a mulher de Pozdnyshev passa a flertar. Esse envolvimento acaba consumindo-o por ciúmes até cometer o assassinato da esposa. Nesse ponto, o romance se torna também uma reflexão filosófica sobre a tensão entre instinto e razão, desejo e moralidade, revelando como a vida íntima pode ser atravessada por dilemas éticos universais.

 

Muitos críticos interpretam o personagem como um alter ego do próprio Tolstói, projetando suas frustrações e crises espirituais.

 

A narrativa se desenvolve em forma de confissão, onde Pozdnyshev relata sua história de casamento, marcada por desconfiança e ressentimento, culminando no crime cometido após suspeitar de um envolvimento da esposa com um violinista.

 

A execução da Sonata nº 9 de Beethoven (Sonata a Kreutzer) funciona como catalisador da tragédia, simbolizando o poder da arte de despertar paixões intensas e perigosas.

 

Embora Tolstói não fosse um defensor explícito da emancipação feminina, sua obra expõe, de forma brutal, a vulnerabilidade da mulher em um sistema patriarcal. A esposa de Pozdnyshev é silenciada, reduzida ao papel de objeto de desejo e suspeita. Aliás, ele é absolvido do crime por defender sua honra:

 

“No julgamento, decidiu-se que fui um marido enganado e que matei defendendo a minha honra imaculada (é assim que isto se chama à maneira deles). E foi por isso que me absolveram.” (pág. 67)

 

A crítica feminista contemporânea vê nesse retrato uma denúncia involuntária da violência de gênero, mostrando como o casamento tradicional podia se transformar em espaço de opressão e perigo.

 

Tolstói domina cada situação com maestria literária. Sua escrita é envolvente, capaz de transportar o leitor para dentro da mente atormentada do protagonista, fazendo-o vivenciar o ciúme, a paranoia e a violência como se fossem experiências próprias. A narrativa é ao mesmo tempo filosófica e visceral, equilibrando reflexão moral com intensidade dramática. A força da obra está em sua capacidade de provocar desconforto e reflexão, obrigando o leitor a confrontar os limites do amor, da sexualidade e da moralidade.

 

“As relações tornavam-se cada vez mais inamistosas. E, finalmente, chegaram a tal ponto que não era mais uma divergência que provocava a hostilidade, mas esta é que suscitava divergência: dissesse ela o que dissesse, eu já estava de antemão em desacordo, e o mesmo se dava com ela em relação a mim. (...) Provavelmente, sempre se considerava com absoluta razão em face de mim, e eu, aos meus próprios olhos, era sempre um santo perante ela. (...)” (pág. 59 e 60)

 

Apesar de ter sido escrita há mais de um século, A Sonata de Kreutzer permanece profundamente atual. As tensões conjugais, os conflitos de poder, o ciúme e a violência doméstica continuam presentes nas relações humanas. Tolstói expõe verdades incômodas que atravessam o tempo, tornando o livro um clássico que dialoga com os dilemas contemporâneos. Ler a obra hoje é perceber que, embora a sociedade tenha mudado, os dramas íntimos do casamento e da convivência permanecem os mesmos.

 

Mais do que um romance, A Sonata de Kreutzer é um espelho perturbador das contradições humanas. Ao unir sua experiência pessoal, o contexto conservador da Rússia e sua genialidade literária, Tolstói criou uma obra que escandalizou sua época, mas que se mantém viva e necessária.

 

Um clássico que continua a nos questionar sobre os limites do amor, da moral e da convivência, e que, ao mesmo tempo, abre espaço para reflexões feministas e filosóficas sobre liberdade, desejo e o poder nas relações humanas.

 

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Depois do Último Trem", Josué Guimarães

LITERATURA RECOMENDADA Cristian Luis Hruschka GUIMARÃES, Josué. Depois do Último Trem, 2a. ed., Porto Alegre: Ed. L & PM, 1979, 141 pág. O Estado do Rio Grande do Sul sempre apresentou ótimos escritores. Érico Veríssimo na prosa e Mário Quintana na poesia, com certeza os maiores representantes. Outros estão meio esquecidos, mas suas obras não podem ser deixadas de lado. Josué Guimarães é um deles. Nascido na cidade de São Jerônimo (RS), teve uma vida movimentada. Trabalhou em diversos jornais de âmbito nacional, sendo perseguido durante o regime militar, quando esteve na clandestinidade escrevendo por meio de pseudônimos. Falecido em 1986, deixou um grande número de obras, adultas e infantis. Seus livros de maior expressão são "Enquanto a noite não chega", reconhecido pela crítica como obra máxima, "Dona Anja", "Tambores Silenciosos" e "Camilo Mortágua". Lembrei de seu nome quando estava lendo o artigo do Alberto Mussa no suplemento ...

"O Vermelho e o Negro", Stendhal

VIDA E MORTE DE UM ELEGANTE CAMPONÊS Cristian Luis Hruschka STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016, 544p. Tradução: Raquel Prado (edição especial encomendada pela TAG para seus associados) Não vou entrar em detalhes críticos, acadêmicos ou políticos. Tudo já foi dito de "O Vermelho e o Negro", livro maior do escritor francês Stendhal. Publicado em 1830, Le Rouge et le Noir conta a breve vida de Julien Sorel, camponês pobre do interior da França que busca projeção na sociedade. Para tanto, socorre-se de sua beleza e inteligência e desde cedo começa a trabalhar como preceptor dos filhos do Sr. de Rênal, pessoa influente na sociedade local. Sorel, personagem muito interessante, logo conquista todos com sua polidez e habilidade nas letras. Tendo decorado a Bíblia, não demora para atrair todos os olhares para si, inclusive da Sra. de Rênal, com quem passa a envolver-se em segredo. Esse relacionamento amoroso é muito sutil, não havendo no li...

"O Homem Nu", Fernando Sabino

UM POUCO DE SABINO E SUA OBRA Cristian Luis Hruschka O HOMEM NU, Fernando Sabino, 38ª. ed., Rio de Janeiro: Ed. Record, 1998, 192 p. Conheci a obra de Fernando Sabino (1923-2004), em dezembro de 2006. Até então só tinha ouvido falar de seus livros sem ter me arriscado a ler algum deles. Bendita hora em que comprei “A Faca de dois Gumes” (Ed. Record, 2005), na praia, em uma banca de revistas. Foi paixão à primeira vista, ou melhor, à primeira leitura. O livro é maravilhoso, composto das novelas “O Bom Ladrão”, “Martini Seco” e “O Outro Gume da Faca”. Uma trilogia prodigiosa que leva o leitor a duvidar do certo e do errado, colocando-o no lugar dos personagens e ao mesmo tempo censurando suas atitudes. Li o livro em uma pegada. Dias após retornei à mesma banca de revistas para comprar “O Encontro Marcado”, livro mais importante da obra de Fernando Sabino, traduzido para diversos idiomas pelo mundo afora e que já ultrapassa a 80ª. edição aqui no Brasil. Não tinha mais jeito,...