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"Os Últimos Dias de Stefan Zweig", Laurent Seksik


 

ENTRE O EXÍLIO E A CULPA

 

Cristian Luis Hruschka

 

SEKSIK, Laurent. Os Últimos Dias de Stefan Zweig, São Paulo: Ed. Gryphus, 2015, 164 páginas (tradução: Gilson B. Soares)

 

O romance Os Últimos Dias de Stefan Zweig, de Laurent Seksik, nos faz adentrar na intimidade de um dos maiores escritores do século XX, revelando não apenas os fatos de seus últimos meses de vida, mas, sobretudo, o peso emocional que o acompanhava.

 

Para os jovens que talvez não conheçam Stefan Zweig, necessário dizer que ele foi um escritor austríaco de origem judaica, mundialmente lido e respeitado, cuja escrita delicada e psicológica capturava os dilemas humanos com rara sensibilidade. Viveu a glória da Europa da Belle Époque, mas também presenciou sua ruína com a ascensão do nazismo e a devastação da Segunda Guerra Mundial.

 

O livro de Seksik nos mostra um homem que, apesar de sua reputação internacional, carregava um desgosto profundo em relação aos alemães e uma impotência esmagadora diante da barbárie que se espalhava pelo velho continente. Mais do que isso, revela o sentimento de culpa que o consumia. Zweig acreditava que, por sua importância e voz reconhecida, deveria ter se manifestado publicamente contra a guerra e a perseguição aos judeus, porém, ao escolher o exílio, passou a sentir-se omisso, como se tivesse abandonado sua pátria e sua responsabilidade moral. Essa culpa se transformava em vergonha diante dos amigos que permaneceram na Europa, lutando com coragem contra o regime nazista, enquanto ele se refugiava em terras distantes.


"Enquanto ele, Stefan, nada ousara fazer, nem assinar uma única petição, nem escrever um pequeno artigo. Ele ficava paralisado pela repercussão que suas palavras poderiam gerar. Os alemães estavam enfiando suas adagas no ventre dos judeus e ele não ousava pronunciar uma palavra que pudesse ser interpretada como uma provocação. Tinha vergonha de si mesmo." (pág. 50).


O Brasil, e em especial Petrópolis, foi o lugar escolhido como refúgio por oferecer um clima favorável à saúde de Lotte, sua segunda esposa, estando, ao mesmo tempo, longe da sanha nazista contra os judeus que tanto o aterrorizava. No entanto, mesmo cercado pela beleza da serra fluminense, Zweig não encontrou paz. O romance sugere que, apesar de estar casado novamente, mantinha uma dependência emocional e referências constantes à sua primeira esposa, Friderike, o que reforça sua sensação de incompletude e fragilidade. Essa dualidade afetiva é mais um elemento que compõe o retrato de um homem dividido entre o passado e o presente, entre a esperança e a resignação.

 

Sua morte, ao lado da esposa Lotte, em fevereiro de 1942, quando ambos tiraram a própria vida, pode ser interpretada como um gesto de desespero e, no meu entender, carrega também o peso de um medo maior: o temor de encarar a realidade, de enfrentar a consciência de sua própria omissão. É como se tivesse se condenado por não ter usado sua voz contra a guerra; como se carregasse a vergonha de não estar ao lado dos que resistiam.

 

"Não queria causar o menor inconveniente a ninguém. Ainda assim, seu gesto lançaria seu nome em desonra até a eternidade. Não era preciso ser um gênio para imaginar o que as pessoas diriam a seu respeito. Tinha abandonado os outros à própria dor, cometido um ato de deserção, quando era chegada a hora de dar combate ao inimigo. Ele se mostrou um covarde, quando se esperava dele que fosse um exemplo de heroísmo. Sabia que o acusariam de todos os males. Ficariam indignados com ele." (pág. 157)


Laurent Seksik, com grande habilidade, recria esse drama íntimo misturando ficção e realidade. A partir de cartas, registros e testemunhos, constrói diálogos e situações que, embora inventados, soam autênticos e nos aproximam da mente atormentada de Zweig.

 

A escrita de Seksik é envolvente e melancólica. Ele não se limita a narrar fatos, mas mergulha na dimensão psicológica de Zweig, criando uma atmosfera de despedida que nos faz sentir a angústia do escritor.

 

O romance é curto, mas intenso, e nos convida a refletir sobre o papel da arte e da consciência em tempos de desesperança. Ao final, não vemos apenas a morte de um grande intelectual, mas o retrato de um homem que, diante da barbárie, não conseguiu suportar o peso da história e da própria culpa.

 

Os Últimos Dias de Stefan Zweig é, portanto, uma obra que transcende a biografia romanceada. É um mergulho na alma de um escritor que, mesmo sendo lido e admirado em todo o mundo, não conseguiu escapar da fragilidade humana. Laurent Seksik nos entrega uma narrativa que mistura rigor histórico e sensibilidade literária, transformando os últimos meses de Zweig em uma reflexão sobre exílio, responsabilidade e impotência. É um livro que nos faz pensar não apenas sobre o destino de um homem, mas sobre o silêncio e a omissão diante da barbárie — e sobre como, às vezes, o maior peso que carregamos é o da própria consciência.

 

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.


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