SILÊNCIO
ESTRATÉGICO E CONSPIRAÇÃO NOS BASTIDORES
Cristian
Luis Hruschka
RIEBLING,
Mark. O Papa Contra Hitler: a guerra secreta da Igreja contra o nazismo.
São Paulo: Ed. LeYa Brasil, 2018, 367 páginas (tradução: Carlos Szlak)
Mark Riebling, em O Papa contra Hitler,
revisita uma das figuras mais controversas do século XX: o Papa Pio XII, eleito
em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
A expectativa mundial pelo novo
pontífice era enorme, já que Eugenio Pacelli assumia em um momento de tensão
crescente na Europa. Seus princípios, voltados para a defesa da fé e da
dignidade humana, seriam postos à prova diante da ascensão do nazismo.
O livro revela que, por trás da
neutralidade pública do Papa, havia uma rede de espionagem e conspiração contra
Hitler. Riebling mostra como padres nazistas infiltrados na Igreja Católica
representavam uma ameaça interna, ao mesmo tempo em que o Vaticano se tornava
ponto de articulação da resistência.
O silêncio de Pio XII ainda continua a
ser discutido, sendo interpretado por muitos como um papa fraco diante da
barbárie que corria a vista do mundo:
“Ao julgar Pio por aquilo que ele não
disse, só se pode condená-lo. Com imagens e pilhas de cadáveres diante de seus
olhos; com mulheres e crianças pequenas compelidas, por tortura, a matar umas
às outras; com milhões de inocentes enjaulados como criminosos, abatidos como
gado e queimados como lixo, ele deveria ter falado abertamente. Depois de sua
primeira encíclica, Pio reeditou distinções entre ódio racial e amor cristão.
Mas com a moeda ética da Igreja, ele se mostrou frugal; em relação aquilo que
privadamente chamou de ‘forças ocultas’, exibiu moderação pública; onde nenhuma
consciência podia permanecer neutra, a Igreja deu a impressão de fazer isso.
Durante a maior crise moral do mundo, seu maior líder global pareceu não saber
o que dizer.” (pág. 38)
Contudo, ainda que muitas vezes
interpretado como omisso, ganha aqui contornos estratégicos, pois, para
Riebling, essa omissão representou a fachada necessária para proteger fiéis e
manter canais secretos de atuação.
Entre os episódios narrados, destaca-se
a iniciativa do almirante Wilhelm Canaris, chefe da Abwehr, que buscou apoio da
Igreja em sua conspiração para derrubar Hitler e negociar a paz com os Aliados.
Outro personagem central é Josef Müller, advogado e membro do partido nazista,
mas crítico das posturas anticatólicas do regime. Müller tornou-se agente da
Igreja infiltrado na cúpula nazista, chegando a se aproximar de Hans
Rattenhuber, comandante da guarda pessoal de Hitler.
O livro também retrata momentos de
ruptura. Exemplo disso é o ocorrido em maio de 1940, diante da perseguição e
morte de católicos, quando Pio XII se rebelou contra a violência alemã. Pouco
depois, publicou um artigo em protesto contra a invasão da Holanda e da
Bélgica, denunciando que a Alemanha estava transformando a Europa em um continente
pagão. O Vaticano, por sua vez, chegou a esconder os assassinos de Reinhard
Heydrich após sua morte em Praga, evidenciando a complexa rede de proteção e
resistência.
Riebling não deixa de abordar os
atentados frustrados contra Hitler, inclusive a célebre “Operação Valquíria”,
que décadas depois seria retratada no cinema com Tom Cruise no papel principal.
Esses episódios reforçam a ideia de que o Papa e seus aliados atuavam nos
bastidores para enfraquecer o regime nazista.
A obra mistura investigação histórica
com narrativa de suspense, aproximando-se do estilo de thrillers políticos. É
uma reinterpretação ousada de um personagem polêmico, apoiada em fontes
documentais inéditas. O estilo envolvente prende o leitor, mas a obra pode ser
vista como tendenciosa, já que busca reabilitar a imagem de Pio XII.
Em síntese, O Papa contra Hitler é mais
do que uma biografia. É um mergulho nos dilemas éticos da neutralidade e da
ação política em tempos de barbárie. Ao revelar a guerra secreta da Igreja
contra o nazismo, Riebling convida o leitor a repensar o papel do Vaticano na
história e a refletir sobre os limites entre silêncio estratégico e
cumplicidade.
CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e
advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere
(www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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