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"A Corrente", Adrian McKinty


LIVRE-SE DESSA CORRENTE

 

Cristian Luis Hruschka

 

MCKINTY, Adrian. A Corrente, 12ª ed., Rio de Janeiro: Record, 2025, 378 páginas (Tradução: Clóvis Marques).

 

Adrian McKinty apresenta em A Corrente uma premissa que, à primeira vista, parece irresistível: uma rede de sequestros em que pais são obrigados a sequestrar outras crianças para libertar seus próprios filhos. A ideia é original e perturbadora, mas a execução não consegue sustentar o impacto inicial.

O enredo, apesar de promissor, não empolga.

O autor recorre a recursos já conhecidos da literatura de suspense — como intercalar falas com pensamentos e alternar ação com introspecção — mas esses mecanismos não criam verdadeira densidade psicológica.

Em vez de aprofundar os dilemas morais ou revelar camadas ocultas dos protagonistas, eles funcionam como truques narrativos superficiais. O resultado é uma trama previsível, sem grandes reviravoltas, que se arrasta até um final pouco surpreendente.

A leitura torna-se cansativa justamente porque o ritmo acelerado não é acompanhado por complexidade narrativa. Parece que lemos dois livros distintos e quando a protagonista principal passa a investigar a “Corrente”, temos a sensação de que estamos lendo um outro livro. Seria melhor mesclar essa busca ao mesmo tempo que tenta resgatar a filha, porém, o autor não preferiu escrever dessa forma ou não teve sucesso nesse sentido enquanto escrevia seus rascunhos.

O universo de personagens é pequeno e limitado. A protagonista Rachel, que deveria carregar o peso emocional da história, carece de definição clara. Sua identidade intelectual e psicológica nunca se consolida, deixando o leitor sem uma figura central forte para se conectar.

Curiosamente, os momentos mais intensos surgem nas digressões sobre a infância de Ginger e Olly (lendo a trama, caso queira, você descobrirá quem são). A agressividade e a violência que marcam suas histórias destoam do restante da narrativa, que assume um tom meloso e até sentimental. Essa discrepância revela o contraste entre o potencial sombrio que McKinty poderia ter explorado e a escolha por uma abordagem mais comercial e simplificada.

Mesmo quando o autor flerta com termos filosóficos — fruto de sua formação em Oxford — o faz de maneira superficial, sem integrar essas reflexões ao desenvolvimento do enredo. O resultado é um thriller que parece querer soar profundo, mas não consegue ir além da superfície.

Apesar das fragilidades literárias, A Corrente teve seus direitos vendidos para a indústria cinematográfica. Como tantas vezes acontece, livros fracos podem render bons filmes. A premissa original, ainda que mal desenvolvida no papel, pode ganhar força no cinema, onde ritmo, tensão visual e atmosfera podem compensar as falhas narrativas. Talvez essa seja a verdadeira salvação de A Corrente, transformar uma ideia desperdiçada em literatura num suspense eficaz nas telas.

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.


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