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"Toda a Grécia Antiga em um Papo de Elevador", Theodōros Papakōstas



TODA A GRÉCIA ANTIGA EM UM PAPO DE ELEVADOR: CULTURA, ARQUEOLOGIA E CIVILIZAÇÃO


Cristian Luis Hruschka

 

PAPAKŌSTAS, Theodōros. Toda a Grécia Antiga em um Papo de Elevador: um diálogo divertido e surpreendente sobre a história, a mitologia e a arqueologia gregas, 1ª ed., Rio de Janeiro: Sextante, 2024, 223 páginas (tradução: Thelma Lersch / Ilustrações: Thanos Tsilis).

 

O arqueólogo grego Theodōros Papakōstas, autor de Toda a Grécia Antiga em um Papo de Elevador, parte de sua formação acadêmica para aproximar a arqueologia do grande público. A arqueologia, ciência que interpreta vestígios materiais, é essencial para compreender a história da Grécia, pois, revela não apenas ruínas, mas também os fundamentos de uma cultura que moldou a civilização ocidental. Papakōstas transforma esse saber técnico em narrativa acessível, mostrando como a escavação de sítios e a leitura de inscrições se conectam diretamente às ideias que ainda hoje influenciam política, arte e filosofia.

A obra percorre a evolução da cultura grega desde seus primórdios. O autor relembra os minóicos, povo de Creta que floresceu entre os séculos III e II a.C., cuja arte refinada e organização social lançaram bases para o desenvolvimento posterior. A transição para a Grécia arcaica trouxe uma inovação decisiva: a criação do alfabeto grego, derivado do fenício, que permitiu registrar mitos, leis e reflexões filosóficas. Esse avanço consolidou a transmissão do conhecimento e deu forma escrita a tradições que antes circulavam apenas oralmente. Com o alfabeto, Homero pôde ser transcrito, Sócrates pôde ser preservado por seus discípulos, e a filosofia encontrou meios de atravessar séculos.

No papo que transcorre durante o livro, onde os protagonistas dialogam enquanto uma pane no elevador os proíbe de saírem, o arqueólogo diz:

“E essa criação [alfabeto] foi de uma simplicidade arrebatadora. Um punhado de letras, cada símbolo com um som correspondente. O sujeito aprendia esses poucos símbolos e era capaz de reproduzir seus pensamentos em seu próprio idioma. Os desdobramentos e as consequências disso foram inimagináveis. Aos poucos essa criação abriu caminho para o ‘milagre’  da cultura grega antiga. Dali em diante muitas pessoas passaram a ser capazes de absorver todas as informações. Esse simples alfabeto foi o solo fértil onde os gregos plantaram a semente que daria ao povo a capacidade de assumir as rédeas do destino, transmitir conhecimento, criar a filosofia, desenvolver as artes e outras áreas do conhecimento. Foi o primeiro passo para o desenvolvimento da democracia” (pág. 93).   

No plano político e militar, Papakōstas destaca a figura de Alexandre, o Grande, cuja expansão levou a cultura grega até os confins do Oriente. O helenismo, resultado desse processo, fundiu tradições locais com o espírito grego, criando uma síntese cultural que se espalhou pelo Mediterrâneo e pelo Oriente Médio.

Essa difusão foi acompanhada pela força da mitologia, que não se limitava a narrativas religiosas, mas estruturava valores sociais e políticos. Zeus, Atena, Apolo e outros deuses eram símbolos vivos, moldando práticas cotidianas e inspirando obras artísticas que ainda hoje impressionam pela beleza e profundidade.

A chegada dos romanos não significou o fim da cultura grega, mas sua amplificação. Conquistadores pragmáticos, os romanos se apaixonaram pela sofisticação helênica e a incorporaram em sua própria civilização. A filosofia estoica, a arquitetura monumental e a literatura grega foram assimiladas, dando origem à cultura helenística que se tornou a base do mundo romano. Esse processo de apropriação e continuidade garantiu que a herança grega não se perdesse, mas se tornasse universal.

“Eles [romanos] eram loucos pelos gregos. Por se considerarem descendentes de Afrodite e bisnetos de heróis homéricos, reivindicavam uma parte da herança grega e participaram dos Jogos Pan-Helênicos, onde eram recebidos como, digamos, primos distantes. Falavam grego fluentemente e iam à Grécia fazer turismo pelas cidades antigas. Roma viveu uma verdadeira febre de Grécia e admirava a arte grega” (pág. 198).

Essa admiração dos romanos pela cultura grega, inclusive, fez com que se apropriarem dos deuses mitológico, onde Zeus virou Júpiter, Afrodite virou Vênus, Atenas se tornou Minerva e Poseidon passou a ser conhecido como Netuno, apenas para citar alguns. Essa fusão cultural foi tão forte que até hoje usamos indistintamente referências gregas e romanas em literatura, artes e filosofia.

Ao final, Papakōstas reforça a ideia de que a Grécia Antiga é um dos pilares da civilização. A democracia ateniense inspirou sistemas políticos modernos; a filosofia grega moldou o pensamento crítico e científico; a arte e a literatura estabeleceram padrões estéticos ainda admirados; e o alfabeto permitiu que ideias atravessassem séculos. Sua obra mostra que a cultura grega não é apenas passado, mas uma herança viva que continua a influenciar o presente.

Assim, Toda a Grécia Antiga em um Papo de Elevador cumpre um papel acadêmico e cultural: traduzir a erudição em diálogo, aproximar o leitor da arqueologia e demonstrar que compreender a Grécia é compreender a si mesmo, pois, nela estão as raízes daquilo que chamamos civilização.

 

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. Autor do livro "Na Linha da Loucura", Ed. Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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