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"Demian", Hermann Hesse

 DUALIDADE

 Cristian Luis Hruschka

 
HESSE, Hermann. Demian, 61ª ed., Rio de Janeiro: Record, 2023, 194 páginas. Tradução: Ivo Barroso.

 

Ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1946, Hermann Hesse se firmou como um dos maiores escritores de língua alemã de todos os tempos. Nascido na cidade de Calw em 02 de julho de 1877, residia na Suíça, tornando-se seu cidadão em 1923, após o término da Primeira Guerra Mundial. Faleceu em 09 de agosto de 1962 na pequena cidade de Montagnola, sendo, por certo, seu mais importante habitante entre a população de pouco mais de dois mil habitantes.

Entre seus livros mais importantes estão Sidarta (1922) e O Lobo da Espete (1927), ambos publicados no Brasil pela Ed. Record. O livro Demian, porém, também merece destaque.

Publicado originalmente em 1917, ainda durante a I Grande Guerra, também é conhecido pelo título de O Caderno de Sinclair (Record, 1984) sendo este o nome de seu protagonista.

Escrito em primeira pessoa é um romance de formação, apresentando um rapaz com muitas dúvidas em busca de afirmações para sua vida.

Desde o início do livro o tema dualidade está presente, deparando-se o jovem Sinclair com o conforto e segurança de seu lar e seio familiar, em contraposto às dificuldades e obstáculos do crescimento para a vida adulta.

Durante a narrativa o mundo encantador e luminoso é confrontado com o mundo perverso e sombrio, e no meio desse turbilhão de sentimentos, surge a figura de Max Demian, menino um pouco mais velho que Sinclair mas que passa a exercer sobre ele uma poderosa influência através de seu comportamento resoluto e questionador, agindo como se fosse um adulto.

É Demian quem livra Sinclair de sua submissão a um outro jovem, Kromer, que o chantageia em decorrência de uma história inventada pelo próprio Sinclair, colocando-o em uma situação da qual ele não tem coragem de se livrar. Demian, então, afasta Kromer do caminho de Sinclair, por motivos que não são esclarecidos no livro:

“É difícil explicar, mas foi assim. Vi-me de repente livre das redes infernais que me aprisionavam, vi diante de mim novamente o mundo claro e risonho, e deixei de sentir os acessos de terror e as palpitações que me afogavam.

(...)

Toda a lona história da minha culpa apagou-se de minha memória com admirável rapidez, sem aparentemente nela deixar cicatrizes ou quaisquer vestígios.”  (Pág. 54)

Esse fato aproxima ainda mais os amigos e faz com que tenham grandes diálogos sobre questões filosóficas e religiosas, como, por exemplo, o sinal de Caim, marcado por Deus por ter assassinado seu irmão Abel, o preferido do Criador. Esse sinal era uma marca física ou representava a culpa que Caim teria que levar por toda sua vida, visto que Deus preferiu não o punir com a morte?

Assim a dualidade permanece no enredo, estabelecendo diferenças e dúvidas sobre o que é permitido e o que é proibido.

Quando Sinclair vai estudar fora de sua cidade, uma nova fase se inicia. Ele se distancia de Demian e do calor de seus pais e irmãs, passando a viver uma vida de excessos etílicos, embebedando-se com frequência e deixando de lado seus estudos, quase ao ponto de ser expulso da escola.

Essa vida desregrada somente é superada quando passa a conviver com Pistórius, organista de uma capela ao caminho da casa de Sinclair e musicista fantástico. É através dele que nosso protagonista é apresentado à Abraxas, um deus da dualidade assim definido por Pistórius:

“Meu caro Sinclair, nosso deus se chama Abraxas e é deus e demônio a um só tempo; sintetiza em si o mundo luminoso e o obscuro. Abraxas nada tem a opor a qualquer de seus pensamentos e a qualquer de seus sonhos. Não se esqueça disso.” (Pág. 126)

Novamente a dualidade está presente, agora como um deus representado pela imagem de um homem com cabeça de galo, pernas em forma de cobras, barriga grande, rabo cheio de nós, que carrega na mão direita o sol e na esquerda um chicote

E assim segue a narrativa entre o bem e o mal, o claro e o escuro, o sagrado e o profano!

O texto apresentado por Hesse conta com mais de 100 anos e continua atual. Os encontros e desencontros de Sinclair e Demian, a relação quase amorosa, a paixão platônica do narrador pela mãe do amigo, os sonhos, a guerra para a qual são chamados e toda reflexão sobre o certo e o errado, tornam o livro uma leitura instigante. Vale conhecer!


CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, professor e advogado. É autor do livro "Na Linha da Loucura", editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

 

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