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"It: A Coisa", Stephen King

UMA OBRA PRIMA DO TÉDIO!

Cristian Luis Hruschka

KING, Stephen. It: a coisa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, 1103 pág. (tradução: Regiane Winarski)

Sempre gostei de Stephen King, não posso negar, mas "A Coisa" não empolga!

Minha relação com ele começou há muito tempo. Por volta de 1995 li "Jogo Perigoso" (1992) - que recebeu excelente adaptação pelo NETFLIX - e a partir daí passei a devorar outros livros do autor como "O Cemitério" (1983), "A Espera de um Milagre" (1996), lançado em fascículos, "Insônia" (1994), "O Apanhador dos Sonhos" (2001), "Tudo é Eventual" (2002), a série "A Torre Negra", entre tantos outros. Por sorte não me deparei com "A Coisa".

O livro é extremamente cansativo e chato. Está longe da adaptação para as telas, tanto daquela de 1990, no formato de minissérie, como na de 2017, muito boa, por sinal.

Conheço o estilo de King de longa data e, se você está pensando em começar a ler sua obra empolgado pelo filme lançado neste ano, por favor não inicie por "A Coisa".

Diferente do filme, o livro situa a trama nos anos 1957/58 e 1985/1986, época em que o livro foi lançado nos Estados Unidos. Na década de cinquenta as crianças contavam com 11/12 anos e na década de oitenta se reencontram para, em definitivo, terminar aquilo que começaram quando pequenos. Interessante que quando adultos eles não se recordam da experiência que passaram juntos, mas todos sabiam que precisavam por um fim no mal que atormentava de tempos em tempos (há um ciclo entre as manifestações da Coisa) a pequena cidade de Derry. No filme as crianças já estão na década de oitenta, uma década fantástica, revolucionária e apaixonante, e certamente a continuação da trama ("segundo capítulo" no cinema) trará os amigos Bill, Richie, Stan Mike, Eddie, Ben e Beverly, para os dias atuais.

A adaptação de "A Coisa" para o cinema não segue a mesma linha das adaptações anteriores dos livros de King. Filmes excelentes como "O Iluminado" e "Um Sonho de Liberdade", acompanham a mesma grandeza do respectivo romance homônimo (1977) e conto ("Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank", do livro "Quatro Estações" (1982)), porém, o palhaço Pennywise do cinema supera aquele representado nas letras. Ainda que no livro a Coisa tenha o poder de se transformar no pior pesadelo de cada personagem, o que não ganha tanto destaque no filme, a versão cinematográfica é melhor por tornar o palhaço realmente assustador.

Por se tratar de  um livro denso, tendo o autor, como de costume, explorado o lado familiar e psicológico de cada personagem, a leitura se torna pesada e cansativa. São muitos personagens para serem esmiuçados e suas vidas nem sempre possuem conexão, salvo estarem todos na cidade de Derry. A amizade entre eles é bonita e até certo ponto inocente, porém, no final do livro (se não quiser saber o que vai acontecer pare a leitura desta resenha por aqui), King destrói todo esse sentimentalismo e coloca a única menina do grupo (Bev) para fazer amor com os demais meninos, um a um. Nesse momento tive vontade de colocar o livro de lado e partir para outro (as crianças tinham apenas 11 anos!), mas, como já tinha vencido quase mil páginas, resolvi seguir em frente. Ainda que esse acontecimento seja explorado de maneira sutil, não há a mínima necessidade de constar no livro. Desse fato não decorre nenhum desdobramento importante. Aliás, a amizade incondicional entre eles poderia estar selada apenas pelo pacto de sangue firmado entre todos, como retratado no cinema.

Retomando o que disse no início, tive sorte de ler "A Coisa" somente depois de já ter me interessado pela obra de Stephen King, de quem continuo admirador. Para aqueles que querem se embrenhar no mundo do mestre do terror, fica a dica: não comece por "It: a coisa"! Depois não me diga que não avisei.

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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela Editora Minarete/Legere (www.facebook.com/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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