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"O Homem do Castelo Alto", Philip K. Dick

AVENTURA QUIMÉRICA

Cristian Luis Hruschka


DICK, Phillip K. O Homem do Castelo Alto, São Paulo: Ed. Aleph, 2006, 300 páginas (tradução: Fábio Fernandes)

Remexendo meus guardados encontrei um livro que estava esquecido. Já na contracapa deparei com o cupom fiscal de quando comprei o exemplar de "O Homem do Castelo Alto": 06/03/2007. Junto dele havia uma nota recortada do caderno "mais!", jornal Folha de São Paulo, provavelmente da mesma época, que assim dizia:

"O escritor americano, autor de histórias que viraram filmes clássicos da ficção científica, como 'Blade Runner', 'Vingador do Futuro' e 'Minority Report', cria neste livro de 1962 uma distopia em que o mundo dos anos 1960 é dominado pela Alemanha nazista e pelo Japão, que teriam vencido a Segunda Guerra."

Resolvi, então, tomar vergonha na cara e ler o livro do poderoso Phillip K. Dick (PKD), falecido em 1982 com apenas 53 anos.

Escrito durante o período em que americanos e soviéticos disputavam a liderança mundial, retrata um mundo onde os Aliados foram vencidos pelos países do Eixo na segunda grande guerra. O território dos Estados Unidos é fatiado, a maior parte fica sob domínio dos alemães, que exercem controle sobre o mundo, uma zona neutra e outra e que fica sob o jugo dos japoneses, mais precisamente a região oeste.

Alemanha e Japão, comparado à guerra fria da época, iniciam um conflito interno, acentuado após a morte do oficial nazista Martin Bormann, então chanceler do Reich (Hitler estava incapacitado pela sífilis), que dá início a uma disputa pela chancelaria travada entre Joseph Gooebels e Reinhard Heydrich. Independente a isso, a população segue sua vida normalmente, sem haver resistência contra o domínio nipo-germânico.

Entre essas pessoas comuns estão Robert Childan, um americano vendedor de antiguidades, objetos bastante apreciados pelos japoneses, principalmente aqueles das classes ascendentes, e Frank Frink, um modesto trabalhador que fabrica peças para serem vendidas em lojas de antiguidades. Frank (que esconde sua real identidade por ser judeu) é ex-marido de Juliana, que vive na área neutra dos Estados Unidos e se envolve com Joe, um "carcamano" que lhe apresenta o livro "O Gafanhoto Torna-se Pesado". Temos ainda o Sr. Tagomi e o Sr. Baynes, ambos ligados à uma conspiração envolvendo conflitos internos entre Alemanha e Japão.

Pelo pequeno relato acima é possível perceber que não se trata de um livro de resistência, de luta contra o domínio alemão e japonês, mas sim de verdadeira distopia, havendo um poder político totalitário que impõe restrições à população, não permitindo a circulação de judeus, muitos deles realizando cirurgias para não serem identificados pelas suas características físicas, e restrições culturais, como, por exemplo, banindo o livro "O Gafanhoto Torna-se Pesado".

Este livro, dentro do contexto da trama, é muito importante para compreensão do texto. Escrito pelo personagem chamado Hawthorne Abendsen, relata o mundo como se os alemães e japoneses tivessem sido derrotados. O livro atrai a curiosidade de todos, até mesmo pela censura imposta, e leva Juliana a querer conhecer o autor. Ela e Joe, que depois se mostra determinado em acabar com Abendsen, vão à procura do "homem do castelo alto", como é conhecido o escritor, mas apenas Juliana chega até ele. Nesse momento toma conhecimento que a história foi escrita com informações obtidas de um oráculo que serve de guia para os japoneses (I Ching), citado diversas vezes durante o desenvolver do livro. Este oráculo, por sua vez, devidamente interpretado, prevê o que vai acontecer, ou seja, Alemanha e Japão perdem a guerra!

O enredo parece confuso e por diversas vezes realmente deixa a leitura insossa e cansativa, mas não esqueçam, estamos falando de PKD e, portanto, de ficção científica. Aliás, nesse particular, o livro apresenta algumas questões um tanto antagônicas, como a possibilidade de viagens interplanetárias enquanto o aparelho de televisão ainda é uma novidade.

Confesso, também, que o livro me pareceu deixar diversas pontas soltas. Phillip K. Dick, na época, havia prometido escrever uma continuação, que nunca aconteceu. O final do livro é totalmente inconclusivo, levando o leitor a refletir sobre toda a narrativa para encontrar um significado ao texto.

Independente a isso, julgo válida a leitura para conhecer o universo irreal e extraordinário de um dos maiores escritores de ficção cientifica da literatura mundial.

Obs.: o livro dá nome à série "The Man in the High Castle" disponível na Amazon Prime. Nos EUA foi anunciada a terceira temporada. No Brasil está disponível apenas a primeira com previsão de estrear a segunda ainda neste ano (https://www.youtube.com/watch?v=GUWHskLEses).
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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com.

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