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"Os Visitantes", Bernardo Kucinski

VISITAS INDIGESTAS
Cristian Luis Hruschka

KUCINSKI, Bernardo. Os Visitantes, São Paulo: Cia. das Letras, 2016, pág. 81.

Em 2013 o escritor Bernardo Kucinski publicou um livro chamado "K. - Relato de uma busca". Na trama conta a história da luta de um pai para encontrar o paradeiro de sua filha, professora de química desaparecida com o marido durante o regime militar. O livro foi aclamado pela crítica e causou impacto na ocasião do seu lançamento.

Agora, Kucinski apresenta ao público "Os Visitantes", uma espécie de continuação de "K.", onde o escritor é visitado por diversas pessoas que dele tomam satisfação quanto à sua participação no livro. Por mais que o escritor se explique, dizendo que se trata de uma obra de ficção, que tudo fora invenção, mesmo justificando os fatos lançados no livro como sendo de licença poética, os visitantes não se dão por satisfeitos, exigindo retratações e criticando duramente a obra. Alguns deles, aliás, sequer leram o livro todo, apenas os trechos em que se julgam afetados, motivo suficiente para exigir contas do autor.

Quando resenhei "K.", (http://resenhas-literarias.blogspot.com.br/2015/02/k-bernardo-kucinski.html?q=k) havia mencionado a verossimilhança da obra com a vida real. É sabido que a professora de química desaparecida era irmã de Bernardo Kucinski e que o livro relata, com a autorizada e apropriada "licença poética", as reflexões de um pai desesperado em encontrar a filha que permaneceu distante dele durante toda a vida. Em "Os Visitantes" não sabemos se na realidade Kucinski fora visitado por todas aquelas pessoas, porém, igualmente há vestígios de veracidade na narrativa:

"Vi que ele estava alterado e, no tom mais sincero que encontrei, lhe disse: Desculpe, Mané... Sem me ouvir ele continuou: E você inventa um torturador que diz que nem precisou acender o cigarro! Senti-me um bosta. Esperei ele se acalmar e balbuciei: Mané, eu escrevi que ninguém pode julgar. Ele retrucou: Mais um motivo para não me expor: ao me apontar você julga, e te digo mais: você pensa que outros não entregavam? Por que você fala de mim e não de outros? A primeira coisa que todos dizem é que não entregaram ninguém, mas a maioria entregou, e sabe por quê? Por que eles nos levavam à loucura! À loucura! Você porventura sabe quantos ficaram loucos para sempre? Quantos acabaram se matando? O que você sabre sobre a tortura? Nada¹ Absolutamente nada!"  (pág. 35).

Pela leitura possível compreender a responsabilidade do escritor ao tratar com tema tão sensível e recente, com marcas ainda vivas nas pessoas que presenciaram aquele período de terror e medo.

No final, após o leitor participar das conversas travadas entre os visitantes e o escritor, este recebe um telefonema para acompanhar pela televisão a entrevista de um ex-delegado de polícia que havia participado de um grupo de extermínio e, após ser preso por outros motivos, encontrou Jesus e resolveu redimir-se de seus crimes e mortes. Em determinado ponto o delegado menciona que diversos corpos foram queimados em um grande forno existente numa fazenda. Entre os incinerados estavam os corpos da professora de química e seu marido. Segundo o entrevistado: "Os dois estavam nus e sem perfuração de bala. Não foram mortes por tiro, que são menos sofridas, foram mortes por tortura. O da professora tinha marcas roxas de espancamentos e outras marcas vermelhas, o do marido estava com as unhas arrancadas" (pág. 80).

Em "Os Visitantes" de  Kucinski , o delegado entrevistado se chamava Carlos Batalha, contudo, as informações do entrevistado, salvo a "licença poética" do escritor, possuem íntima ligação com o livro "Memórias de uma Guerra Suja" (Topbooks, 2012, resenhado em http://resenhas-literarias.blogspot.com.br/2013/02/memorias-de-uma-guerra-suja-claudio.html?q=guerra), que narra a história obscura do período militar na versão do ex-delegado do DOPS, chamado Carlos Guerra, não Batalha, aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros. É provável que o escritor de "Os Visitantes" receba novas visitas!

Li o livro de Kucinski em um só fôlego, no aeroporto de Porto Alegre (RS). O texto objetivo e inquieto nos obriga a prosseguir. Esperamos ansiosos pelo próximo voo do escritor.
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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com

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