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"Quando Fui Outro", Fernando Pessoa

FRAGMENTOS DE PESSOA
Cristian Luis Hruschka

PESSOA, Fernando, Quando Fui Outro, Ed. Alfaguarra, 2006, 224 pág., organizada por Luiz Ruffato.


“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.”
(Passagem das Horas)

Revendo minha pequena biblioteca, deparei com Quando fui outro, de Fernando Pessoa, cuja antologia de poemas e textos em prosa, organizada pelo escritor Luiz Ruffato, comprei há alguns anos. Comecei relendo sem compromisso e logo o livro prendeu novamente minha atenção. Em questão de horas tinha devorado páginas e mais páginas.

Fernando Antônio Nogueira Pessoa, nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 13 de junho de 1888. Desde cedo já despontava para as letras e por elas viveu até morrer com 47 anos em decorrência de problemas hepáticos. Apesar da vida curta seu valor para a literatura portuguesa é incomparável, sendo ao lado de Pablo Neruda um dos maiores poetas que já existiram.

De personalidade singular, era ligado ao ocultismo e misticismo sendo arredio a toda e qualquer igreja organizada, em especial a católica. Apesar da intensa produção literária, em vida publicou apenas uma coletânea de poemas, Mensagem, considerado pelos críticos seu melhor trabalho.

Com uma obra de profunda reflexão, Pessoa criou os famosos heterônimos, entre eles Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares, com identidades poéticas completas que mesmo inexistentes possuíam manifestação literária própria e exprimiam opiniões diversas do autor principal. Grandes poemas surgiram dessa complexa estrutura, entre eles o famoso Tabacaria, atribuído a Álvaro de Campos:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”

Com o passar do tempo, Fernando Pessoa, a personalidade principal, passou a confundir-se com os heterônimos por ele criados e transitar entre eles.

Através de sua poesia enigmática tratou de temas subjetivos, da intelectualidade da pessoa humana. Eis um bom exemplo:

“A constituição inteira do meu espírito é de hesitação e de dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado.”
(Que espécie de homem sou)

Procurou ainda, de todas as formas, divulgar a língua portuguesa, pela qual era apaixonado, chegando a surpreender-se ao encontrar textos antigos, ainda escritos enquanto jovem:

“É freqüente eu encontrar coisas escritas por mim quando ainda muito jovem – trechos dos dezessete anos, trechos dos vinte anos. E alguns têm um poder de expressão que não me lembro de poder ter tido nessa altura da vida.”
(Tudo se me evapora)

Ainda que de cunho negativo e pessimista, que prefiro atribuir ao seu lado místico e irrequieto, tinha com a vida um cumplicidade singular, uma constante procura pelo seu significado, onde, segundo Pessoa: “Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar” (Intervalo doloroso).

É bela a passagem do poema Segue o teu destino, atribuído ao heterônimo Ricardo Reis:

“Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.”

Há, porém, sempre a busca por algo mais, a incessante certeza de chegar num lugar inatingível em confronto com a pequenez humana diante de seus anseios e propósitos.

Misterioso, subjetivo, reflexivo. Impossível não deixar se levar por Fernando Pessoa e suas múltiplas identidades.

__________________

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com


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