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"Flores da Ruína", Patrick Modiano

PASSEIO POR PARIS
Cristian Luis Hruschka

MODIANO, Patrick. Flores da Ruína. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2015, 143 páginas. Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto.

Muito conhecido na Europa, Patrick Modiano ganhou destaque no Brasil após ser laureado com o Nobel da Literatura de 2014. Como de costume, grandes editoras passaram a traduzi-lo e/ou reeditá-lo. Nascido em Paris (1945), é filho de um comerciante judeu e uma atriz belga. Autor de mais de trinta livros, merecem maior destaque aqueles que abordam a ocupação nazista na França (1940-1944), período conturbado da história mundial.

O livro "Flores da Ruína", lançado em 2015 pela Ed. Record, integra a chamada "Trilogia Essencial", complementada pelos livros "Remissão da Pena" e "Primavera de Cão", também publicados pela Record. Podem, porém, ser lidos de maneira isolada.

A escrita de Modiano é realmente de muita qualidade, com passagens poéticas e bem construídas. Contudo, não espere o leitor por surpresas e mistérios desvendados nas últimas páginas, pelo contrário. A trama, que inicia com o suposto suicídio ou assassinato de um casal em 1933, é relatada pelo narrador que circula pelas ruas de Paris. Nesse "passeio" ele rememora diversos locais por onde viveu e relata momentos de sua vida. Trata-se, na verdade, de um livro com passagens autobiográficas, permeadas de ficção.

O curioso é que mesmo sem qualquer suspense vertiginoso, o livro prende o leitor, prometendo apresentar uma situação empolgante que nunca chega. Assim, segue-se até o final da leitura, sempre na expectativa de que algo surpreendente ocorra. Ao terminar o livro, ainda que pendente de um desfecho arrebatador, fica a sensação do prazer da leitura, certamente gerada pela beleza do texto:

"A avenue des Champs-Élysées... É como o lago que evoca uma romancista inglesa e no fundo do qual se depositam, em camadas sucessivas, os ecos das vozes de todos os passantes que sonharam sobre suas margens. A água ondulante conserva para sempre esses ecos e, nas noites silenciosas, os ecos se misturam uns aos outros..." (pág. 103)

Caso queira aventurar-se no universo de Modiano, não espere por enredos com tramas mirabolantes ou reviravoltas. Leia pelo prazer da leitura, pela beleza das palavras, pela amplitude dos pensamentos, das lembranças. A aventura maior está em sentir como o autor consegue mantê-lo amarrado no enredo, respeitando-o e proporcionando uma leitura agradável sem a necessidade de chocá-lo com palavrões, mortes com requintes de crueldade ou situações constrangedoras e polêmicas. Leia desapegado de qualquer interferência externa. Leia procurando entender as entrelinhas. Leia como se estivesse ouvindo as palavras, ditadas por uma voz doce, calma e melodiosa. Leia, tire suas conclusões.

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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com

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