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"A Segunda Pátria", Miguel Sanches Neto

E SE A ALEMANHA VENCESSE...
Cristian Luis Hruschka

SANCHES NETO, Miguel. A Segunda Pátria, Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015, 320  pág.

Professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), Miguel Sanches Neto é um dos melhores críticos literários do País, atividade que aumentou com o advento da internet, porém, caiu muito em qualidade. Seus comentários são respeitados e balizam muitos dos livros que estão no mercado. Uma pena que a página "Herdando uma Biblioteca" (miguelsanches.com.br) não esteja mais sendo atualizada (em 2013 foram apenas 2 atualizações, em 2014 nenhuma e 2015 apenas uma em janeiro). Tem muita coisa boa lá!

Mas não é só na crítica que se destaca. Miguel Sanches Neto é autor de diversos romances, sendo o último intitulado "A Segunda Pátria". A trama se passa no  sul do Brasil, mais precisamente em Blumenau (SC) e Porto Alegre (RS), em um cenário onde o Governo Federal Brasileiro é simpatizante aos nazistas. Essa história sempre rondou nosso imaginário, existindo diversas teorias de que o então presidente Getúlio Vargas tivesse ligações com o governo alemão e que aderiu aos Aliados em virtude de pressões dos norte americanos. A história, porém, é contada pelos vitoriosos e nela nossos pracinhas lutaram bravamente na Europa, liquidando as forças do Eixo em busca da paz, ainda que pela guerra.

O livro retrata a vida de Adolpho Ventura que, apesar de negro, idolatra a cultura alemã. Formado engenheiro no Rio de Janeiro (RJ), retorna para Blumenau justamente no período em que o Partido Nazista recomenda que "estavam proibidas todas as formas de contato com negros, índios e judeus". Ventura perde o emprego e a vida começa a desabar. Preso, é encaminhado para os chamados campos de internamento e passa a sofrer na mão do povo que tanto idolatra, cuja língua domina e os costumes admira.

Paralelo à isso é contada a história de Hertha, exemplo da beleza ariana que é levada para a cidade de Porto Alegre onde mantém relações sexuais com o símbolo máximo do nazismo, o próprio Führer. Hertha não é nenhuma amadora nas lidas do sexo, muito pelo contrário, é professora, e suas proezas são narradas no decorrer da trama. Hitler, porém, não sabe que o exemplo da raça alemã já passou por diversas mãos, para dizer o mínimo.

Esses personagens convivem em um momento histórico peculiar e contracenam com personagens que existiram. Sanches Neto, porém, não se preocupa em contar a histórica da forma que conhecemos, alterando fatos e eventos, circunstâncias e resultados. Sua brincadeira com os acontecimentos históricos deixa o enredo curioso e tira o leitor da zona de conforto. A literatura tem essa capacidade fantástica de surpreender, onde a criação é livre e ilimitada, ainda que para alterar fatos verídicos. Por isso é que se chama ficção!

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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com

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