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"A Sombra do Vento", Carlos Ruiz Zafon


OS SEGREDOS DO LIVRO
Cristian Luis Hruschka

A SOMBRA DO VENTO, Carlos Ruiz Zafón, Rio de Janeiro: Ed. Suma das Letras, 2007, 399 pág.


Acabo de ler A Sombra do Vento, do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Confesso que no início o livro não me animou, pegando ritmo após as sessenta primeiras páginas. No entanto, a velocidade que a leitura tomou é algo impressionante, deixando o leitor numa constante expectativa para saber por onde andará Daniel Sempere.

Tudo começa quando o menino Daniel é levado por seu pai, dono de um sebo na cidade de Barcelona, a um local intangível chamado “O Cemitério dos Livros Esquecidos”. Lá, totalmente a esmo, o rapaz puxa das labirínticas estantes um exemplar de Julián Carax, escritor desconhecido. Leva o livro para casa e a leitura o consome por toda a noite. Extasiado, busca saber mais sobre a vida do autor e procura por novos livros seus. Daí para frente Daniel penetra num mundo repleto de mistério, mentiras, romance, sexo, intrigas, perseguições e outros temas mais que tornam o livro de Zafón um dos melhores nos últimos tempos.

O universo de personagens é impressionante e neles o autor consegue permear e sincronizar fatos pretéritos com a linha de tempo em que a estória se passa, a década de 50. Uma das personagens mais curiosas, na minha opinião a melhor de todo o livro, se chama Fermín Romero de Torres, um mendigo que Daniel conhece nas ruas de Barcelona e depois acolhe na livraria do seu pai. Fermim, no entanto, esconde um passado de luta e se mostra um verdadeiro intelectual, com uma verve mordaz e de peculiar presença de espírito. É protagonista de destaque na trama, tal como o próprio Carax e Laín Coubert, cuja ligação o leitor irá desvendar durante a leitura do livro.

De igual forma, Penélope Aldaya e Beatriz Aguilar tem similaridades, cujos romances e paixões com Carax e Daniel Sempere se assemelham. Nuria Monfort, Miquel Moliner e Francisco Javier Fumero também merecem destaque, este último pela sua prepotência e procedimentos asquerosos. Enfim, Zafón constrói seus personagens de forma cuidadosa e pedagógica, traçando as linhas e direções da personalidade de cada um, especialmente dos amigos da infância de Carax.

Entre surpresas, revelações e emoções, a aventura de Daniel Sempere tem como mote principal o livro, ator principal de toda a trama e motivador das mais diversas e inusitadas situações. Sem ele o enredo não se desenvolveria, não tomaria vulto. É responsável por ligar todas as peças desse inteligente livro, unindo-as em um tabuleiro de 399 páginas e apresentando um desfecho espetacular, verdadeiro xeque-mate.

Fato curioso é que na narrativa os livros de Julián Carax nunca conseguiram vendas expressivas, sempre estando a margem de grandes nomes. No entanto, aqueles que leram seus livros ficaram inexplicavelmente apaixonados pela leitura e obcecados pelo autor. Esse tópico é bem explorado por Zafón, incutindo aos leitores de A Sombra do Vento a idéia de que grandes livros e autores nem sempre estão em destaque nas livrarias, fazendo prevalecer a boa literatura às estratégias de marketing aplicadas hodiernamente pelas grandes editoras. É assim que deveria ser: o livro reconhecido pelo seu conteúdo e não pela sua capa. Por essas e outras é que A Sombra do Vento merece o espaço que tem ocupado nas prateleiras de todo o país.

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CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com

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