Pular para o conteúdo principal

"O Alienista", Machado de Assis


O ALIENISTA EM QUADRINHOS
Cristian Luis Hruschka



O ALIENISTA, Machado de Assis, adaptado por César Lobo (arte) e Luiz Antonio Aguiar (roteiro), São Paulo: Ática, 2008, 72 pág. (Clássicos Brasileiros em HQ).






“A loucura, objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão;
começo a suspeitar que é um continente”.
(Machado de Assis, “O Alienista”).

O ano que passou foi considerado o “Ano de Machado de Assis”, homenagem ao escritor brasileiro por força do centenário de sua morte ocorrida em 29 de setembro de 1908. À guisa de diversas homenagens, muito se falou e comentou à respeito, inclusive no segmento das histórias em quadrinhos. Nessa senda, o trabalho realizado por César Lobo e Luiz Antonio Aguiar, este profundo conhecedor da obra do Bruxo do Cosme Velho (tendo publicado em 2008 o “Almanaque Machado de Assis” – Ed. Record), merece destaque.

Em exemplar primoroso, os autores adaptaram a novela “O Alienista”, um dos melhores trabalhos Machadianos, para os quadrinhos. Dita adaptação não pode escapar ao texto original, devendo, no entanto, ser condensada e ilustrada em perfeita simetria. Conforme se pode verificar nos comentários ao final do livro, “para buscar a linguagem dos quadrinhos – ou seja, para fazer uma boa história em quadrinhos –, o texto tem de ficar mais curto e mais fácil. Afinal, a fala tem de caber no balão e ser bem entendida.”

A história é conhecida. Simão Bacamarte, médico na pequena cidade de Itaguaí, no Estado do Rio de Janeiro, decide que irá internar na Casa Verde todos aqueles que considerar loucos. Não tarda para boa parte dos munícipes estar trancafiada nas dependências do nosocômio, gerando a fúria da comunidade. Após insurgências populares e confusões de toda sorte, Bacamarte resolve libertar todos os internos sob o pretexto de que reexaminou sua teoria e concluiu que “louco é ser equilibrado o tempo todo, sem falhas!” Como resultado de sua descoberta, Simão Bacamarte, em suas amplas aptidões e virtudes, conforme elogios ventilados pelo Padre Lopes, no alto de sua perfeição, recolhe-se à Casa Verde, falecendo após dezessete meses de internação.

Em “O Alienista”, Machado de Assis colocou a ciência em confronto com a religião. Segundo Ivan Teixeira, em artigo publicado no Jornal “A Folha de São Paulo” (Mais!, 28 de janeiro de 2008): “Nas veladas insinuações da autoridade do padre Lopes sobre Simão Bacamarte, vislumbra-se o interminável debate entre a teologia e a ciência, empenhadas com igual obstinação em apresentar a melhor hipótese sobre a origem do mundo e dos meios de governá-lo. Na trama, a igreja não só vigia como procura orientar os movimentos da ciência. Esse pormenor, aliás, será um dos enigmas da narrativa, que, em meio ao crescente prestígio da ciência, como que esconde, para revelar, a camaleônica autoridade da igreja sobre aquela noção que se projeta até o final do texto, quando o vigário pronunciará o veredicto sobre a insanidade do alienista.”

Fácil perceber que o trabalho de adaptação do livro para os quadrinhos não foi dos mais tranquilos, fato que ressalta a capacidade de César Lobo e Luiz Antonio Aguiar nesse excelente trabalho, que certamente deverá agradar os leitores e iniciar os mais jovens na obra de Machado de Assis.

O livro ainda destaca aspectos e curiosidades da época em que a trama se passa, fins do século XVIII e início do século XIX, e alguns “Segredos da Adaptação”. Faz parte da coleção “Clássicos Brasileiros em HQ”, da Editora Ática, e sua proposta não poderia ser mais feliz: levar o leitor a se “envolver com os grandes clássicos da literatura brasileira”.

__________________

CRISTIAN LUIS HRUSCHKA, responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro "Na Linha da Loucura", publicado em 2014 pela editora Minarete/Legere (www.facebook.com.br/nalinhadaloucura). E-mail: clhadv@hotmail.com

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Depois do Último Trem", Josué Guimarães

LITERATURA RECOMENDADA Cristian Luis Hruschka GUIMARÃES, Josué. Depois do Último Trem, 2a. ed., Porto Alegre: Ed. L & PM, 1979, 141 pág. O Estado do Rio Grande do Sul sempre apresentou ótimos escritores. Érico Veríssimo na prosa e Mário Quintana na poesia, com certeza os maiores representantes. Outros estão meio esquecidos, mas suas obras não podem ser deixadas de lado. Josué Guimarães é um deles. Nascido na cidade de São Jerônimo (RS), teve uma vida movimentada. Trabalhou em diversos jornais de âmbito nacional, sendo perseguido durante o regime militar, quando esteve na clandestinidade escrevendo por meio de pseudônimos. Falecido em 1986, deixou um grande número de obras, adultas e infantis. Seus livros de maior expressão são "Enquanto a noite não chega", reconhecido pela crítica como obra máxima, "Dona Anja", "Tambores Silenciosos" e "Camilo Mortágua". Lembrei de seu nome quando estava lendo o artigo do Alberto Mussa no suplemento ...

"O Homem Nu", Fernando Sabino

UM POUCO DE SABINO E SUA OBRA Cristian Luis Hruschka O HOMEM NU, Fernando Sabino, 38ª. ed., Rio de Janeiro: Ed. Record, 1998, 192 p. Conheci a obra de Fernando Sabino (1923-2004), em dezembro de 2006. Até então só tinha ouvido falar de seus livros sem ter me arriscado a ler algum deles. Bendita hora em que comprei “A Faca de dois Gumes” (Ed. Record, 2005), na praia, em uma banca de revistas. Foi paixão à primeira vista, ou melhor, à primeira leitura. O livro é maravilhoso, composto das novelas “O Bom Ladrão”, “Martini Seco” e “O Outro Gume da Faca”. Uma trilogia prodigiosa que leva o leitor a duvidar do certo e do errado, colocando-o no lugar dos personagens e ao mesmo tempo censurando suas atitudes. Li o livro em uma pegada. Dias após retornei à mesma banca de revistas para comprar “O Encontro Marcado”, livro mais importante da obra de Fernando Sabino, traduzido para diversos idiomas pelo mundo afora e que já ultrapassa a 80ª. edição aqui no Brasil. Não tinha mais jeito,...

"Mossad - Os Carrascos do Kidon", Eric Frattini

EM NOME DE ISRAEL Cristian Luis Hruschka FRATTINI, Eric. Mossad os carrascos do Kidon: a história do temível grupo de operações especiais de Israel. 1a. Ed., São Paulo: Ed. Seoman, 392 pág. Referenciado por uns e considerado por outros como sendo um grupo terrorista de Israel, o Mossad consiste no mais avançado e treinado serviço de investigação israelense. Criado em 1951, teve como proposta inicial vingar os judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente seis milhões, e combater os inimigos de Israel em todo e qualquer lugar do planeta. O "Kidon", por sua vez, é a unidade "secreta"do Mossad, este vinculado ao Metsada, responsável pelas operações especiais de Israel. Sua norma básica de atuação é: "Não haverá matança de líderes políticos; estes devem ser tratados através dos meios políticos. Não se matará a família dos terroristas; se seus membros se puserem no caminho, não será problema nosso. Cada execução tem de ser autoriza...